Cultura

Vivemos em uma cidade digital?

O que vem à mente quando você ouve a expressão “cidade digital”?

Uma cidade digital resulta da relação frutífera entre tecnologia, indivíduos, empresas e governos. Nela, desenvolvem-se projetos e experiências que deveriam: democratizar o acesso à tecnologia e à informação; facilitar a vida dos cidadãos e seu acesso aos serviços públicos; otimizar os gastos dos recursos públicos; diminuir a burocracia; inspirar a criação de políticas públicas mais eficientes, garantir a transparência na administração pública etc. (a propósito, sobre o conceito cidade digital, sugiro a leitura das obras do professor André Lemos, da UFBA)

Vivemos em uma cidade digital?

Em que pé estaria nosso Brasil neste contexto? Confesso que não tenho conhecimento suficiente para fazer essa análise, mas se sabe que ocupamos a 72ª posição no ranking do Global Information Technology Report (2016), elaborado pelo Fórum Econômico Mundial.

Infelizmente, a gente pode sentir esse atraso nas situações mais ordinárias do nosso cotidiano. Veja minha experiência que inspirou esta lamúria.

Caí na roubada de esquecer de pagar o IPTU de 2018. No início do mês, recebi da Prefeitura de São Paulo o bendito boleto, que ficou rodando como feno pela casa. Tomei vergonha ontem e decidi pagar, mas… a saga foi grande.

Dia 1

  • Tentei pagar no app do banco, mas foi notificada que a operação não era possível, pois a data tinha vencido. O feedback do app dizia: “vá ao caixa na agência”.
  • Saquei o $, fui até minha agência, enfrentei fila, quando cheguei na atendente fui informada de que só poderia pagá-lo em bancos públicos, e aquele não era o caso.
  • Fui ao primeiro banco público, enfrentei fila e o “sistema” caiu.
  • Fui ao segundo banco público, não tinha fila, mas fui informada que o IPTU de São Paulo agora só se paga diretamente no caixa eletrônico porque a Prefeitura acabou com os convênios com os bancos para esse tipo de transação, mas…, para isso, precisaria emitir a 2ª via do documento pela internet.
  • Voltei para casa, entrei no site da Prefeitura e, para emitir a 2ª via, precisei preencher um cadastro e criar uma senha. Mas… a senha é bloqueada e só é liberada se você vai a uma unidade da Prefeitura.

Dia 2

  • Fui à subprefeitura, peguei outra senha, fui no guichê, desbloqueei a senha, os atendentes emitiram a tal 2ª via, mas não no valor total como que eu queria, mas em 10 vezes, porque o sistema inteligente deles só “permite” assim.
  • Fui na Caixa Econômica Federal, o único banco público que recebe o pagamento do IPTU após o vencimento por aqui. Paguei o troço e me livrei. Ufa!

Daí eu pergunto: por que, em 2018, a cidade dita a mais bem desenvolvida do país impõem aos cidadãos tanta burocracia? Por que tanta desinformação? Por que não podemos acessar os serviços públicos de uma maneira fácil e rápida? Quanto dinheiro e tempo se gasta com esse tipo de gestão? Aliás, nosso dinheiro (leia-se: impostos) está sendo aplicado em projetos que realmente tornem as cidades digitais?

Recentemente, a jornalista Juliana Carpanez publicou uma reportagem no UOL em que narra como a Estônia, na região báltica da Europa, vem explorando inteligentemente a tecnologia para melhorar a vida de sua população e incrementar as ações governamentais, tornando-se, assim, um país digital, que ocupa a 22ª posição no tal ranking do Fórum.

cidade digital 01
Tallinn, a capital da Estônia (Crédito: Shutterstock)

Por lá, 99% dos serviços públicos estão disponíveis online, quase 98% das pessoas têm um único documento e cartão digital, que integra suas vidas on e off-line. Com ele, elas podem: fechar contratos, realizar transações bancárias, acessar o histórico médico, pagar taxas, votar.

Quantos anos demoraremos para chegar lá?

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Raquel Melo

Raquel Melo é Jornalista, Mestra em Ciências da Comunicação (ECA/USP), Especialista em Gestão da Comunicação Digital (Senac), Professora e Pesquisadora (Atopos) de Tecnologia, Inovação, Transformação Digital e Educação Corporativa.

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