Transportes

Como será o trânsito do futuro?

Wanis Kabbaj tem um olhar peculiar sobre as cidades. Em recente TED Talk, contou que um de seus maiores prazeres é observar as cidades do céu, da janela de um avião. De cima, gosta de localizar e apreciar as principais ruas e rodovias pelas quais se dá o trânsito de veículos.

De acordo com ele, cidades são seres com vida. As ruas formam as artérias, compondo o sistema vascular das cidades, e desempenham sua função vital diante de nossos olhos. Mas, quando Kabbaj lembra de estar preso em um engarrafamento, toda essa concepção se esvai imediatamente.

Não é um absurdo termos criado carros que chegam a 200 km/h e dirigirmos na velocidade das carruagens do século 19? – Wanis Kabbaj

Horas despendidas no trânsito

Sem dúvida, o ser humano despende incontáveis horas no trânsito.

Todos os anos, a empresa TomTom se dedica a medir o congestionamento nas redes viárias de 295 cidades ao redor do mundo e traz números importantes e, ao mesmo tempo, preocupantes.

De acordo com seu mais recente índice de tráfego, 5 cidades lideram o ranking de maior congestionamento do mundo: Cidade do México (México), Bangkok (Tailândia), Istambul (Turquia), Rio de Janeiro (Brasil) e Moscou (Rússia).

No México, por exemplo, cada motorista perde 57 min por dia e 219 h por ano no trânsito. Já em Instambul, cada motorista despende 47 min por dia e 178 h por ano no tráfego. No Rio de Janeiro, os cariocas ficam 43 min por dia e 165 horas por ano congestionados.

Em resumo, o total do número de horas despendidas no trânsito em todo mundo leva a uma conclusão inevitável: uma enorme perda de tempo, energia e potencial humano.

O sistema vascular de nossas cidades está doente

Durante décadas, a solução do ser humano para os engarrafamentos foi relativamente simples. A princípio, construir novas estradas ou alargar as já existentes era suficiente.

Embora tenha funcionado para algumas cidades – e dado certo para cidades de rápido crescimento – as expansões significativas das vias são praticamente impossíveis em centros urbanos mais consolidados, em que o ambiente é denso.

O sistema vascular de nossas cidades está ficando obstruído, doente, e precisamos prestar atenção. Nossa atual forma de pensar não está funcionando. Para nosso tráfego fluir, precisamos de uma nova fonte de inspiração. – Wanis Kabbaj

E se a solução para o trânsito estivesse dentro de nós?

Em sua obra Where Good Ideas Come From (2011), Steven Johnson afirma que a maioria das grandes ideias começa de forma parcial e incompleta, aguardando um elemento decisivo para se transformar em algo mais concreto.

Em síntese, muitas vezes esse elemento decisivo – que ainda não surgiu – está vivendo sob a forma de uma intuição na cabeça de outra pessoa, em algum outro lugar.

No caso de Kabbaj, a ideia que revolucionou sua vida ocorreu após conversar com uma biotecnóloga. A saber, ela lhe contava como seu tratamento estava influenciando propriedades específicas do sistema vascular humano, quando Kabbaj teve seu momento eureka.

Foi quando percebeu que as veias e artérias de nosso corpo faziam milagres de logística todos os dias, distribuindo suavemente o sangue para todo o corpo. Assim sendo, Kabbaj observou que a biologia estava no ramo dos transportes há bilhões de anos.

Em resumo, ninguém – além dele, agora – havia percebido isso.

Kabbaj quis saber mais. Buscou entender por que o sangue corre em nossas veias com tanta suavidade enquanto o fluxo do trânsito das grandes cidades é tão obstruído. Enfim, surpreendeu-se ao descobrir que cada um de nós tem 96.560 km de vasos sanguíneos no corpo (duas vezes e meia a circunferência da Terra).

Mas seu maior aprendizado foi de que o sistema vascular humano usa as três dimensões (dentro de nós), ao passo que o transporte urbano é, na maior parte, bidimensional. Com a finalidade de resolver o problema do trânsito, era essencial que adotássemos a verticalidade.

Se a rede na superfície está saturada, bem, vamos elevar o tráfego. – Wanis Kabbaj

E como podemos melhorar o trânsito?

Os chineses desenvolveram um conceito bastante inovador de ônibus capaz de transpor os engarrafamentos. Acima de tudo, o conceito demonstrando uma nova maneira de se pensar sobre espaço e movimento dentro das cidades:

A empresa norte-americana SkyTran está projetando um sistema de transporte pessoal de alta velocidade e baixo custo. A princípio, o conceito envolve levitação magnética para mover passageiros de maneira rápida, segura e econômica:

Em contrapartida, a companhia italiana Next desenvolveu um avançado sistema de transporte inteligente, que consegue se separar dinamicamente durante o trajeto. Em resumo, à medida que os passageiros selecionam o destino, o transporte se “desmembra” aos poucos:

Solucionando os congestionamentos

Embora as três iniciativas sejam válidas para reduzir e solucionar congestionamentos, e tenham a pretensão de revolucionar o trânsito das cidades modernas, Kabbaj entende que precisamos também melhor o espaço – preenchendo mais os veículos.

Normalmente, em torno de 85% dos veículos que transitam nas ruas da cidade têm apenas um passageiro. De 100 carros existentes em uma rua, 85 são ocupados apenas pelo próprio motorista. Esses 85 motoristas caberiam em um dos tradicionais ônibus londrinos.

Por que perdemos tanto espaço se é o que mais precisamos? Por que fazemos isso? A biologia nunca faria isso. O espaço dentro das artérias está todo preenchido. A cada batimento, uma pressão arterial mais alta compacta milhões de hemácias formando enormes trens de oxigênio que rapidamente correm pelo corpo. E o pequeno espaço dentro das hemácias também é usado: em condições saudáveis, mais de 95% de sua capacidade de oxigênio é usada. – Wanis Kabbaj

E se os veículos usados nas cidades fossem 95% preenchidos? Quanto espaço livre ganharíamos para andar, pedalar e curtir nossas cidades? A imagem divulgada pelo The Cycling Promotion Fund ilustra a ideia perfeitamente:

trânsito no futuro confira a imagem

É bem verdade que a solução não será imediata, até mesmo porque muitas cidades tem sistemas de transporte deficitários, mas Kabbaj acredita que podemos criar veículos que combinam a conveniência do carro com a eficiência de trens e ônibus. 

E se as cidades não tivesse mais motoristas? 

Finalmente, talvez uma das maiores forças em ação sejam os veículos autônomos. Os protótipos apresentados pelo Google – concentrados agora na empresa Wayno – indicam que, em poucos anos, veremos carros auto-dirigíveis trafegando nas ruas das cidades.

Mas o que aconteceria quando cidades inteiras ficassem sem motoristas? Precisaríamos de semáforos? Precisaríamos de faixas? E limites de velocidade? Hemácias não correm em faixas. Nunca param no sinal vermelho. – Wanis Kabbaj

Nesse futuro sem motoristas não haverá necessidade de semáforos ou mesmo faixas. Os motoristas estarão todos conectados entre si, e o fluxo será controlado por algoritmos dinâmicos, que se aprimorariam constantemente.

Para Wanis Kabbaj, o trânsito do futuro será funcionalmente exuberante. Portanto, o tráfego de veículos será líquido como nosso sangue. Paradoxalmente, quanto mais robotizada for nossa rede de tráfego, mais orgânico e vivo será seu movimento.

E se, no futuro, o trânsito fluísse nas ruas com a mesma suavidade que o sangue corre em nossas veias?

Enfim, o desafio já está lançado.

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Redação

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