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Negócios

Deixe o trabalho chato para os robôs

Teremos mais liberdade, direito e oportunidade para sermos quem sonhamos ser

“O que você vai ser quando crescer?” Essa é uma das perguntas que os adultos mais costumam fazer para as crianças, certo? E faz todo sentido, afinal, a vida adulta está diretamente relacionada à profissão, à geração de renda e a algum trabalho (muitas vezes chato) que consome nosso tempo em troca de sustento.

Acontece que a criança, diferente do adulto, dificilmente vai priorizar a compensação financeira nessa equação. A criança, quando convidada a projetar seu próprio futuro, se imagina em atividades que ela considera divertidas, prazerosas, relevantes ou curiosas. Repare!

Sonho de criança

É muito comum ver crianças falando que querem ser astronauta, atleta, artista, professor, bombeiro, top model ou cuidar de animais abandonados. Bem mais comum do que uma criança querendo ser auxiliar administrativo, contador, representante comercial, jurista… Mas, em algum momento da vida, isso muda.

Sempre gosto de trazer a esta discussão a triste história de uma tábua de passar roupa. Uma simples tábua que tinha o sonho de ser uma prancha de surf e desbravar os sete mares. 

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Você conhece triste história de uma tábua de passar roupa? (Crédito: Shutterstock)

Mas o tempo se encarregou de fazer ela desistir de seus sonhos de infância porque era preciso arranjar um trabalho. E a prancha de surf acabou virando uma tábua de passar roupa.

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Quantas pessoas a gente não conhece que desistiram de seus sonhos de infância para arranjar um emprego e garantir a sobrevivência no competitivo e acirrado jogo da vida?

A menina que queria ser bailarina e acabou virando arquiteta. Ou o cara que mandava muito bem no violão e virou bancário assalariado.

Isso é, na verdade, só mais um dos muitos sintomas preocupantes que o Capitalismo trouxe à sociedade. São as pessoas que são obrigadas a abrir mão de seus sonhos ou até das suas vocações porque precisam “trabalhar de verdade”. Porque precisam de dinheiro. Porque precisam sobreviver.

Não chega a ser um absurdo. O que é errado, mesmo, é achar que as coisas vão ser sempre assim. A começar por pessoas trabalhando em algo que elas mesmo consideram chato, entediante ou irrelevante. Pessoas que, infelizmente, são a grande maioria (pesquisas revelam que mais de 80% dos trabalhadores odeiam seus empregos).

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Muitas pessoas consideram seu trabalho chato, entediante ou irrelevante (Crédito: Shutterstock)

Para essas tarefas chatas e detestadas, o sistema já está providenciando um novo perfil de funcionário que já está desempregando muito trabalhador reclamão por aí. Esse tipo de funcionário não cobra salário, não varia de rendimento, não chega atrasado, não tira férias, não fofoca, não reclama e não entra em sindicato. São os nossos amados robôs!

Eles, os robôs

Eles começam desempregando a turma que torce parafuso na esteira de produção, o ascensorista, a galera do telemarketing… Daqui a pouco, quando piscarmos os olhos, já estarão desempregando publicitários, juízes, médicos e até professores.

Sim, robôs fazendo tudo que essas pessoas fazem, só que “mais e melhor”. E quando eles tirarem os empregos dos políticos com a caravela do blockchain (Nossa! Isso vai ser lindo), o bicho vai pegar!

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Eles começam desempregando a turma que torce parafuso na esteira de produção… (Crédito: Shutterstock)

Vamos ser honestos: “trabalhar” (no sentido chato da palavra) é um saco! É um porre (se bem que o porre pode ser divertido)! Mas a gente se submete a essa chatice porque precisa da grana para comprar produtos e serviços fornecidos por outros trabalhadores.

Mas e se todos os trabalhadores desse ciclo forem substituídos por robôs (tanto nós como os nosso fornecedores)? Faça um esforço e imagine o ciclo completo. Quem vai precisar trabalhar nesse história?

Há quem diga que uma empresa no futuro só vai precisar de dois funcionários “orgânicos”: um homem e um cachorro. O homem serve para alimentar o cachorro. E o cachorro serve para distrair o homem e não deixar que ele faça nenhuma bobagem.

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Daqui a pouco, quando piscarmos os olhos, já estarão desempregando juízes… (Crédito: Shutterstock)

Entendeu o papel do ser humano nessa cadeia produtiva?

Mas calma aí, dificilmente nos tornaremos desocupados obesos que passarão o dia vendo a grama crescer. Esse papo de que as pessoas precisam de uma atividade remunerada e rotineira para se manter ativas e relevantes beira a blasfêmia. É estar com a mente muito presa ao sistema atual.

Primeiro porque hoje temos muito mais facilidade e objetividade nas coisas do que se tinha antigamente. Diferente dos camponeses de dois séculos atrás, a gente não precisa passar o dia indo até o rio pra coletar água: fazemos isso girando uma válvula na torneira mais próxima. E nem por isso somos mais “desocupados” do que eles.

E além do mais: numa cadeia produtiva global totalmente orquestrada pela automação, teremos finalmente a tão sonhada abundância de recursos, com produção e distribuição inteligente (inteligente aqui significa ser gerenciada por robôs).

O dinheiro naturalmente vai perder seu sentido e o custo marginal zero vai ressignificar a prestação de serviço: artistas trabalharão somente por aplausos. E chefs, estilistas ou fotógrafos apenas brincarão de ser artistas. Porque curtem demais o que fazem. Sim, Viveremos numa realidade bem diferente dessa em que vivemos hoje.

Por que não deixar o trabalho chato para os robôs?

Mas não, não será um mundo perfeito. Porque os humanos continuarão nele e, como sabemos, “onde há humanos, há imperfeição” (Não estou reclamando, viu? Digo isso com uma certa vaidade até).

Mas vários dos problemas que nos assombram hoje já serão absurdos do passado. Assim como a gente, hoje, chama de absurdo coisas como “escravidão”, “holocausto” e “inquisição”.

Nesse mundo “menos imperfeito”, as pessoas finalmente poderão dar uma segunda chance àqueles sonhos de infância. Ninguém vai precisar aposentar a guitarra contra a própria vontade porque chegou a hora de procurar emprego. Ninguém vai deixar de se aventurar em diferentes áreas com medo de ficar sem trampo.

Ninguém vai precisar se sentir humilhado por estar desempregado. Teremos mais liberdade, direito e oportunidade para sermos quem sonhamos ser. Vão rir da nossa cara quando descobrirem que tinha gente que passava mais de 40 horas por semana fazendo algo chato.

Bom, esse dia ainda não chegou e não tem nem data prevista para estreia. Ainda somos obrigados a dançar conforme a música e escolher uma profissão que a vida nos apresentou como a mais segura ou rentável. De qualquer forma, se auto projetar em um futuro possível é sempre algo divertido e interessante.

Aliás: o que você fez com seus sonhos de infância, mesmo?

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É fã de super-heróis japoneses, quadrinista nas horas vagas e entusiasta de futurismo. É sócio-fundador do Zoonk (zoonk.org). Trabalha como profissional de Criação na Assessoria de Comunicação e Marketing da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).

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