Inovação

Open Innovation: precisa ser tão “OPEN” assim?

Open Innovation é a expressão do momento.

Muita gente já percebeu que nos dias de hoje não é possível inovar sozinho. As mega corporações atualmente se orgulham de possuírem programas de inovação aberta ou de digitalização (ou transformação digital, que é o termo mais da moda). Esses programas basicamente conectam a empresa às startups, universidades, centros de pesquisa e desenvolvimento que podem gerar produtos e serviços inovadores.

Com a popularização do uso do termo open innovation apareceram algumas regras equivocadas ou generalizadas de forma incorreta, como “não é possível disrupção na estrutura já existente de uma companhia, tem que ser feita em uma empresa separada”, “vamos retirar tudo que é realizado em papel e trocar pessoas por bots, isso significa digitalização”, “vamos buscar startups que resolvam todos os nossos problemas e reduzir os riscos”, e por aí vai.

Para somar a esse problema, pessoas que nunca tiveram experiências ou estudo em inovação e intraempreendedorismo, que geralmente já estavam na organização e inseridas na cultura, passaram a assumir mais uma função: a digitalização da empresa.

Digitalização e mudança cultural

O problema é que a digitalização, do ponto de vista de mega corporações, envolve muito mais mudanças culturais do que ferramentais, e pouca atenção é dada a isso, justamente porque falta conhecimento do que se está fazendo.

O que percebo é que em um mundo de regras empíricas muitas vezes as corporações não estão conseguindo alcançar os resultados esperados de seus programas de inovação aberta. E a inovação tem sido encarada como um apêndice existente apenas para dizer que a empresa está alinhada às melhores práticas de mercado.

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Não existe inovação sem experimentação, erros e riscos (Crédito: Shutterstock)

Existem diversos motivos para se pensar em inovar em conjunto com o ecossistema: não ser “atropelado” por tecnologias disruptivas e reduzir seu risco ao testá-las; entender que, num mundo com acesso democrático à informação, as melhores ideias podem vir de qualquer pessoa e estar atento a isso; perceber que a mudança de uma grande corporação é muito mais lenta, e o custo de decisões erradas é muito maior; trazer um maior número de soluções e produtos; fazer marketing positivo para o mercado; para citar alguns.

Porém, o que tenho presenciado é uma overdose do exponential thinking e do moon shot thinking nesse processo. Percebo a quase obsessão pelas disrupções levar a perda de várias inovações incrementais com potencial incrível, mas com menos glamour. Afinal, o “legal” é focar em não ser as próximas Kodak, Nokia e Blockbuster e não, o que em minha visão seria muito adequado também, focar em ser as próximas 3M e Ideo.

O que os gestores corporativos precisam entender é que a pura terceirização dos problemas para as startups ou universidades sem uma cultura interna na organização que suporte estes movimentos simplesmente resulta em empresas que matam as startups, não aceitam as ideias inovadoras ou não conseguem obter resultado de fato de seus programas de digitalização.

Por exemplo, se você, como cultura corporativa, apenas reconhece e premia acertos e pune os erros, obviamente seus executivos irão ter aversão a tomar riscos e à experimentação. E não existe inovação sem experimentação, erros e riscos!

Ou, imagine que você realmente encontre uma startup maravilhosa, que pode se tornar um unicórnio e “disruptar” seu negócio. Você simplesmente vai demitir todo mundo e investir o dinheiro todo nessa startup, ou vai ter de incorporar isso ao seu negócio?

Open Innovation e gestão da mudança

Em qualquer caso, não existe falar em Open Innovation, do ponto de vista do corporate, sem falar de gestão da mudança internamente. Mas, por algum motivo, as pessoas pararam de focar nisso.

Tenho alguns palpites dos motivos. Essa overdose de comunicação sobre empresas que já nasceram inovadoras, que mataram negócios vigentes, acabou criando nos executivos muito mais um senso de caça ao tesouro do que de inovação de fato.

Uma coisa é inovar em uma startup, que pode pivotar a qualquer momento; outra, muito diferente, é ter uma cultura de inovação em uma mega corporação, às vezes centenária, que não nasceu inovadora.

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Há quem diga que em tempos exponenciais não existirão mais mega corporações (Crédito: Shutterstock)

Esse segundo caso é um caso de gestão da mudança, é cultura, é gente! É muito mais gente do que ferramenta aliás. E, quando você está lidando com esse cenário, por mais que o open innovation seja necessário, tem um enorme trabalho interno de estratégia de inovação e gestão de pessoas a ser feito.

Não me surpreende a famosa briga do “ROI de curto prazo” versus o “não ser a nova Kodak”, que presenciamos entre os apaixonados por disrupção e os executivos tradicionais. Em geral, nesses extremismos ninguém sai ganhando e a resposta costuma estar no meio do caminho.

Há quem diga que em tempos exponenciais não existirão mais mega corporações. Alguns economistas inclusive, como prêmio Nobel Oliver Williamson, dizem que a existência dessas empresas já é por si uma imperfeição de mercado. Mas o fato é que hoje essas empresas existem e obviamente tentarão sobreviver a longo prazo.

Não há mais duvidas de que o caminho para tal seja a inovação aberta, porém, com ações internas concretas e focadas em possuir uma estratégia e uma cultura de inovação. Envolve ter um modelo de gestão da mudança robusto para que as iniciativas não morram ao serem internalizadas.

E isso, não dá pra terceirizar, não dá pra fazer aberto, tem que ser trabalho interno mesmo. E dá muito trabalho.

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Gláucia Alves da Costa

Diretora de Excelência e Inovação da Andrade Gutierrez, membro do centro nacional de referência em inovação da fundação Dom Cabral, instrutora de Open innovation e head de missões para o Vale do Silício na Pieracciani. Engenheira civil pela UFMG, Mestre em engenharia de produção com ênfase em gestão e inovação pela UFRJ, MBA pela COPPEAD UFRJ e University of San Diego, Doutoranda em Global Business com ênfase em Open Innovation.

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