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Cultura

Como os nerds estão colonizando o futuro

A nave dos nerds está decolando em alta velocidade

O termo “nerd” (ou “nerds) vem ganhando um ressignificado nos últimos anos e até se desvinculando de derivações como “CDF”, “otaku” e “geek”. Originalmente, tratava-se de uma designação depreciativa e totalmente estereotipada, que foi conquistando seu espaço ao longo das últimas décadas até atingir um status de “orgulho” para aqueles que se identificam com o perfil.

Numa perspectiva geral, o nerd é aquele cara extremamente inteligente, estudioso e obcecado por assuntos que não são exatamente as preferências do “povão” (games, jogos de tabuleiro, ficção científica, animes e mangás). Em sua representação mais clichê, é retratado como um sujeito de óculos, tímido, pedante, sem nenhuma vocação para esportes e nada atraente.

Você sabe que, hoje, esse estereótipo é bem manjado e que qualquer pessoa que curte coisas supostamente “nerds” não precisa corresponder a esse perfil, necessariamente.

O nerd conquistou seu espaço na sociedade e, para não ser confundido com aquela imagem pejorativa de décadas atrás, criou-se o termo “geek”, que seria uma espécie de “nerd mais envolvido com tecnologia de ponta e eletrônicos”.

Mas, para o psicólogo Erick Itakura, do Núcleo de Pesquisa em Psicologia e Informática da Clínica da PUC-SP, geek e nerd são a mesma coisa. O que mudou de fato, segundo ele, foi a aceitação da maioria das pessoas por esse perfil.

Espaço consolidado dos nerds

Um fator muito interessante é que o advento da geração nerd/geek aproximou e misturou os entusiastas da tecnologia, os aficionados por cultura pop e os estudiosos antissociais numa tribo híbrida e consolidada.

Prova disso são eventos consagrados como a Comic Con Experience de São Paulo (a CCXP), que reúne cerca de 200 mil pessoas dos mais variados segmentos do universo nerd: leitores de quadrinhos, cosplayers, gamers, colecionadores de action figures, fãs de seriados, youtubers… Tem de tudo!

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Os Comic Cons reúnem milhares pessoas dos mais variados segmentos do universo nerd (Crédito: CCXP14)

E o que pode parecer “festa estranha com gente esquisita” para alguém completamente distante desse contexto é, no fim das contas, uma grande oportunidade para promover diversão, interação e cultura. Além de explorar um mercado bastante fértil e lucrativo, claro.

O legal é que se trata de um público que, em geral, é jovem, de classe média-alta, bem intencionado e que dedica boa parte do seu tempo a um hobby que desenvolve o prazer e o hábito da leitura (no caso de leitores de Harry Potter e Senhor dos Anéis) ou a coordenação, o raciocínio e a lógica (no caso dos games).

Isso sem falar na excelente oportunidade de aprender inglês (ou japonês, no caso de fãs de animes e mangás) de forma intuitiva e lúdica.

A ficção científica é a arqueologia do amanhã

Nesse universo, as obras de ficção científica também ganham uma relevância astronômica. Clássicos como Star Wars, O Guia do Mochileiro das Galáxias, O Exterminador do Futuro, Star Trek e Patrulha Estelar arrastam uma legião de fãs para esse estilo de vida cada vez mais compreendido e abraçado pelo público geral.

Uma prova disso é a presença de um programa de TV na grade da Rede Globo dedicado exclusivamente a falar sobre assuntos nerds como games, filmes de super-heróis, quadrinhos e cultura geek em geral.

Estamos falando do Zero 1, apresentado por Tiago Leifert (o mesmo que apresenta o Big Brother e o The Voice) nas madrugadas de sábado para domingo.

O programa, por sinal, também apresenta novidades da indústria dos games e até coisas bem “futurísticas”, como hardwares de inteligência artificial e realidade virtual-mista-aumentada. Tudo numa linguagem bem compatível com esse público jovem mais acostumado com YouTube do que com TV.

Interessante observar que a ficção científica tem uma relação íntima com o futurismo. De acordo com o escritor William Gibson, os autores de sci-fi têm a oportunidade (e o desafio) de “colonizar o futuro”.

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Para Gibson, os autores de sci-fi têm a oportunidade (e o desafio) de “colonizar o futuro” (Crédito: Jason Redmond)

Partindo da premissa de que o futuro ainda não existe e que estamos o transformando a cada instante, através das nossas ações e nossas escolhas, a ficção científica tem a capacidade de apresentar cenários futuros diversos, sejam estes utópicos, distópicos, apocalípticos, cyber punk ou tantos outros que nos acostumamos a ver por aí.

Logo, uma produção de ficção científica tem uma responsabilidade muito maior do que apresentar cenas de ação gratuitas, efeitos especiais ou pirotecnia high tech.

E, sendo bem esperançoso, hoje estamos muito bem servidos de obras de ficção bastante variadas, que nos dão sinais e apontam os diferentes cenários futuros “colonizáveis”. Algo que só é possível graças a essa “nação nerd”.

Para compreender melhor isso, repare como é comum ver menções a obras de ficção científica toda vez que uma nova descoberta revolucionária da ciência é anunciada.

Lembrar do Exterminador do Futuro, por exemplo, é quase obrigatório quando surge um avanço promissor no campo da Inteligência Artificial. O mesmo serve para os episódios de Black Mirror, que são constantemente introduzidos em conversas que abordam os perigos da tecnologia.

Nerd Power

Quando falamos em nerds (ou geeks) lendários, falamos em caras como Bill Gates, Mark Zuckerberg e Elon Musk. São caras que, você vai concordar, já mudaram o mundo.

Esse tipo de gente já foi rotulado de forma bastante pejorativa há menos de três décadas atrás (ok, ainda existe um certo preconceito rondando por aí). Hoje, sabemos que os nerds podem ser muito mais do que desengonçados caricatos. Eles consolidam um público bastante seleto e poderoso como comunidade.

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O termo “nerd” vem ganhando um ressignificado nos últimos anos (Crédito: Unsplash)

Sabe-se lá quantos gênios da engenharia ou da ciência não se inspiraram em personagens fictícios como Tony Stark ou Sheldon Cooper (de Big Bang Theory). 

E quantos programadores será que não viraram o que são graças aos viciantes jogos eletrônicos? Quantas vocações e talentos artísticos só existem graças a esse tsunami maravilhoso que é a cultura nerd?

Acompanhar de perto produções ditas como “coisa de nerd” também é uma forma de se relacionar com o universo do futurismo, porque são duas coisas perfeitamente interligadas.

E se hoje estamos vivendo uma “corrida espacial” (ou seria temporal?) com foco na colonização de futuros desejáveis, a nave dos nerds já está decolando em alta velocidade.

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É fã de super-heróis japoneses, quadrinista nas horas vagas e entusiasta de futurismo. É sócio-fundador do Zoonk (zoonk.org). Trabalha como profissional de Criação na Assessoria de Comunicação e Marketing da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).

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