Ciência

Entenda como é passar 8 meses em uma missão simulada de Marte

Uma equipe de seis cientistas voluntários concluiu recentemente uma das mais extensas missões simuladas de Marte. Durante oito meses, os pesquisadores foram confinados em uma cúpula no topo do vulcão Mauna Loa, no Havaí, a fim de aprender o que é necessário para sobreviver no planeta vermelho.

Embora não seja uma representação exata de Marte, o local foi escolhido por apresentar solo semelhante ao marciano. Em resumo, o vulcão Mauna Loa é um dos únicos lugares na Terra com potencial de recriar as condições ideais para preparar os astronautas a uma futura viagem até Marte.

Esta foi a quinta e mais longa missão do HI-SEAS (Hawaii Space Exploration Analog and Simulation). Financiado pela NASA, o projeto busca compreender os efeitos sociais e psicológicos do isolamento e confinamento para aprimorar a dinâmica de trabalho dos tripulantes durante as viagens espaciais.

A quinta missão do projeto HI-SEAS

Iniciado em janeiro de 2017, o HI-SEAS V contou com seis voluntários: Ansley Barnard, James Bevington, Joshua Ehrlich, Laura Lark, Brian Ramos e Samuel Payler. Os participantes viveram em uma cúpula branca por oito meses, simulando uma expedição no planeta vermelho.

Durante o período, os membros da tripulação tiveram de se alimentar como astronautas, comendo refeições liofilizadas, e usar roupas especiais para deixar o habitat. Na iminência de uma missão real para Marte, o estudo trouxe novos insights para entender como sobreviver no espaço.

Embora cada um dos participantes tenha concedido entrevistas na mídia, selecionamos hoje as impressões de Laura Lark sobre os oito meses de confinamento. Confira a seguir o relato da pesquisadora sobre a quinta e mais longa missão do projeto HI-SEAS, encerrada em setembro de 2017:

Marte equipe
A tripulação da HI-SEAS V: Brian, Laura, Ansley, Sam, Joshua e Jay (Crédito: HI-SEAS)

Como é passar oito meses em “Marte”?

Na visão de Laura, a parte mais difícil da missão simulada foi a ausência de contato em tempo real. Para tornar o experimento o mais autêntico possível, todas as comunicações foram propositalmente atrasadas em 20 minutos (o mesmo tempo que os sinais de rádio levam para viajar de Marte para a Terra).

Não era possível realizar uma chamada de voz ou mesmo um bate-papo ao vivo, o que, para Laura, foi absolutamente desafiador. Como especialista em TI, Laura era responsável por manter os sistemas tecnológicos do habitat em pleno funcionamento. Mas, com um atraso de 20 minutos, nem sempre era possível.

É muito difícil descobrir exatamente quais informações você precisa enviar. Qualquer falta de comunicação tem um custo muito grande em termos de tempo. – Laura Lark

Na visão de Laura, cada tripulante vivenciou o experimento de uma forma diferente. Uns se adaptaram mais rapidamente, enquanto outros demoram um pouco mais. Mas todos sentiram falta de comida fast food. Lanches do McDonald’s e do Taco Bell foram, por diversas vezes, assuntos na mesa do jantar.

Marte hi-seas
O habitat do projeto HI-SEAS (Crédito: HI-SEAS)

Conflitos internos

Como um dos objetivos do estudo era verificar a comunicação e colaboração da equipe no período de confinamento, os tripulantes tinham de preencher diariamente formulários para descrever como estavam se sentindo. As pesquisas identificavam os efeitos psicológicos e os níveis de estresse da equipe.

Para Laura, conflitos são inevitáveis quando um pequeno número de pessoas decide viver em um ambiente isolado durante oitos meses. Contudo, apesar da dificuldade em lidar com as discussões e preservar o relacionamento com os membros da equipe, Laura acredita que o resultado foi positivo:

Nós nos esforçamos muito para manter nossos relacionamentos individuais uns com os outros e a moral da nossa equipe. – Laura Lark

Além do preenchimento de formulários, os tripulantes realizavam atividades para estudar a vida em “Marte”. Dentre as tarefas estavam: excursões para coletar dados, estudos geológicos, processamento de dados e elaboração de relatórios sobre as principais atividades de cada semana.

Lazer e diversão

No tempo livre, os astronautas assistiam filmes ou se dedicavam a leitura (Laura levou consigo um Kindle). Uma vez por semana, jogavam jogos de tabuleiro. Dentre os jogos favoritos da equipe estava o Pictionary, cujo objetivo é adivinhar uma palavra através de um desenho feito no papel.

Saindo da cúpula

Como as viseiras das roupas espaciais eram riscadas e deformadas, os tripulantes não conseguiam enxergar em amplitude quando estavam fora do habitat. Logo, no momento de sair da cúpula sem as vestimentas, o choque foi inevitável: finalmente era possível ver tudo novamente.

Quando saímos sem as roupas espaciais, percebemos que havia muito mais detalhes sobre a paisagem que nos rodeava do que podíamos ver. – Laura Lark

Laura disse estar triste com o término da missão, mas acredita ter sido uma oportunidade única de estudar os efeitos do isolamento. Embora não possam divulgar mais detalhes, seu relato revela que o confinamento prolongado pode ser um grande desafio aos astronautas que vierem a viajar a Marte no futuro.

A próxima missão do HI-SEAS está prevista para ocorrer em 2018. Embora nem NASA tampouco o site oficial do projeto tenham divulgado maiores informações, presume-se que o período de duração será ainda maior que o do quinto experimento. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

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Redação

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