Cultura

Maldita Geração Z!

Eles não sabem o que é jantar ao som da vinheta do Jornal Nacional. Eles não assistem a filmes “inéditos” na Tela Quente. Eles não sentam na poltrona para assistir às vídeo-cassetadas do Faustão. Eles são os chamados centennials, também conhecidos como Geração Z.

Vieram depois da “Geração Y”, comumente chamada de millenials. São nativos do Século XXI e, acredite, eles também aprenderam a caminhar sozinhos, a falar e já estão até entrando pra universidade, mesmo que isso já não seja mais um sonho compatível com sua geração.

Se você, assim como eu, já tem mais de 30 anos e analisa essa geração do outro lado da vitrine, te convido a refletir um pouco sobre essa nova safra de seres humanos que, queiramos ou não, serão o futuro do nosso planeta.

A Geração Z

É comum ouvir de gente mais velha (ou nem tão velha assim) que “essa molecada que tá aí” é mimada, fútil, preguiçosa… Você já deve ter ouvido isso aos montes, se é que não reforça o coro. Para amenizar esse sentimento de repulsa, vamos tentar entender o que gerou esse estereótipo do jovem moderno.

Antes de mais nada, é preciso destacar que essa galerinha, que nasceu depois da virada do milênio, cresceu num mundo bem diferente do que a gente se habituou nos anos 70, 80 ou 90. A diferença é bem maior, na proporção, do que aquela entre nossa geração e a dos nossos pais.

A enxurada exponencial de novas tecnologias e novos hábitos, principalmente com a chegada da internet e dos smartphones, nem se compara às novidades tecnológicas da nossa época. Então, é óbvio que eles serão adolescentes e adultos bem diferentes do conceito que nos acostumamos a assimilar até aqui.

Chamá-los de “mimados”, “fúteis” ou “preguiçosos” é, na minha percepção, algo tão injusto quanto desleal. É também algo que eu percebo como um “sentimento de negação”. Sabe aquela história de velho que não aceita as novas tecnologias porque simplesmente não tem mais perna para tal? É basicamente isso.

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Chamá-los de “mimados”, “fúteis” ou “preguiçosos” é algo tão injusto quanto desleal (Crédito: Unsplash)

Mas, antes de começar minha defesa aos centennials e à sua “geração vizinha” (os millenials), vou listar aqui umas seis informações básicas que precisam ser entendidas:

  1. Eles não separam o profissional do pessoal: aprendi a concordar com isso no amadurecimento da minha carreira profissional. Esse negócio de “se transformar” ao bater o ponto é tão ultrapassado e sem sentido quanto bizarro.
  2. Eles querem fazer a diferença na empresa e no mundo: esse negócio de trabalhar para se estabilizar na carreira ou juntar dinheiro nem passa pela cabeça da nova geração. Eles escolhem onde vão trabalhar acreditando na causa e nos propósitos da empresa, que significam muito mais do que segurança financeira (até porque muitos deles são sustentados pelos pais e não se envergonham disso).
  3. Eles são motivados pelo empoderamento: esse negócio de respeitar um chefe por medo ou subordinação já era! A gurizada de hoje é muito mais motivada pelo reconhecimento e pela admiração que sentem por quem está no comando. E, acredite, eles almejam o protagonismo.
  4. Eles vivem em um mundo de mudanças constantes: diferente de nós, que nos habituamos a ver mudanças acontecendo uma vez por ano (quando muito), essa molecada vive mudanças tão ou mais bruscas semanalmente. Eles vivem uma revolução tecnológica por semestre e, pro nosso desespero, conseguem acompanhá-las. Ou seja, o que disseram pra nós quando entramos na faculdade (“você está prestes a escolher o que será pelo resto da vida”) chega a ser bizarro para eles, que tendem a trocar de carreira pelo menos cinco vezes durante a vida profissional (eu disse carreira, não empregos).
  5. Eles acham que manjam de tudo: sim, eu sei que isso soa pejorativo, mas os millenials e centennials realmente acham que o fato de ter um smartphone conectado à internet os torna detentores do conhecimento universal. É normal vê-los consultar informações rápidas e descartáveis numa conversa informal (por exemplo: “qual a capital do Acre, mesmo?” ou “qual a idade do Sílvio Santos?”) com um simples “Ok, Google!”. Mas isso não chega a ser um “afronto à aquisição do conhecimento”: é só um jeito novo de aprender e absorver informações que, por bem ou por mal, precisamos assimilar.
  6. Eles sabem muito de tecnologia: nisso aí eles são imbatíveis. É jogo perdido para nós tentar acompanhá-los em seu conhecimento avançado e intuitivo sobre gadgets, hardwares e softwares. E o que se faz quando se reconhece a derrota? Reclama? Proíbe? Ignora? Não!!! Você se junta a eles!

Compreendendo os Centennials

Outra gritante diferença da geração Z para a nossa é sua relação com as mídias. Você certamente acharia grande coisa ver um assunto de seu interesse ganhando a pauta do Fantástico, certo? Mas essa galerinha aí sequer assiste TV. Muito menos a TV aberta.

Televisor na casa, para os mais jovens, serve só pra ver Netflix, Youtube ou jogar videogame. E de preferência dentro dos respectivos quartos. Esse lance de juntar todo mundo na mesa do jantar e acompanhar as notícias enunciadas pelo William Bonner já caiu oficialmente no rol do saudosismo.

Telejornal, Voz do Brasil, jornal impresso ou rádio não combinam com a geração moderna. Eles se informam pelo Facebook, pelos portais de notícia, pelo Twitter ou até pelo WhatsApp.

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Os millenials se informam pelo Facebook, pelos portais de notícia, pelo Twitter ou até pelo WhatsApp (Crédito: Flickr)

Cabe aqui uma confissão: as principais notícias que eu recebi nos últimos meses (denúncia do Temer, morte do Jacque Fresco, eleição do Trump, ameaça de bomba norte-coreana, Neymar no PSG…) foi tudo através de informações compartilhadas instantaneamente por algum amigo ou num grupo de Whatsapp que vazou na hora.

E tudo com uma velocidade absurda. Logo, que sentido faz aguardar o noticiário pra saber o que está acontecendo? O mundo acontece na palma da nossa mão e as novas gerações já entenderam isso bem antes da gente.

Não só as velhas mídias ficaram pra trás: os formadores de opinião também. Se você acha que os principais influenciadores (que hoje são chamados de “influencers” mesmo) de hoje são as celebridades globais, você deveria prestar mais atenção na molecada.

Eles não estão nem aí pro Luciano Huck, pra Sabrina Sato, pra Fernanda Lima, pro Tadeu Schmidt ou pra Sandy. Eles idolatram mesmo (e idolatram muito!) o Winderson Nunes, o Felipe Castanhari, o Rezende, a Kéfera, o Gato Galactico…

Ahh! Você não conhece nenhum deles? Acha que estou exagerando? Talvez você ainda não tenha noção do que é esse mundo dos centennials.

O impacto dos youtubers

Vou fazer mais uma confissão aqui: particularmente eu nunca gostei desses youtubers (muito menos dos “modinhas”). Não acho que seja algo compatível com minha idade.

Tive muitas dificuldades pra entender por que raios um Whinderson Nunes tem mais de 23 milhões (!) de inscritos e ganha uma fortuna apenas gravando vídeos pra internet. Hoje eu entendo que “os youtubers são os novos jogadores de futebol” (essa frase é de minha autoria! lembre-se disso quando você for parafrasear).

No meu tempo, todo moleque queria ser jogador de futebol tão rico e bem sucedido como o Romário, o Ronaldinho e o Kaká. Hoje a galera quer ser youtuber (pode tirar a prova)!

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Os youtubers são os novos jogadores de futebol (Crédito: Pixabay)

E, assim como jogador de futebol, pra cada 1 que dá certo, tem 500 dando errado. Ser “mais um” youtuber não é garantia de sucesso e fortuna (assim como futebolista). Mas os que “chegam lá”, esses sim, se dão bem! O Whinderson Nunes é o “Neymar do YouTube”.

Meu esforço em tentar entender o que faz a gurizada gostar tanto nesses vídeos me fez observá-los com um olhar mais empático e atencioso. Um dos canais que conseguiu me fisgar e me cativar foi, acredite, o do “Gato Galactico“.

Com quase 4 milhões de inscritos, o jovem Ronaldo consegue interagir com a molecada numa informalidade impressionante, histórias bobinhas, leves e incrivelmente divertidas. Tudo com um cuidadoso e refinado trabalho de edição que só um senso crítico mais aguçado consegue perceber que se trata de algo muito além da futilidade.

E acredite, tem muito conteúdo ali! Ronaldo fala das coisas do cotidiano e que geram um senso de aproximação muito bacana com a gurizada.

E é um cara do bem, que entende a responsabilidade que possui por dialogar com tanta gente e por influenciar uma quantidade absurda de centennialsEsse seu poder certamente vai impactar muita gente que estará no protagonismo brasileiro/mundial daqui a alguns anos.

Aprenda a respeitar a Geração Z

Entender e aprender a respeitar a Geração Z, bem como seus ídolos, é fundamental para compreendermos o futuro. É esta Geração Z que vai tomar as rédeas do planeta nas próximas décadas. Não os trate com desdém e nem caia na armadilha de achar que eles são menos esforçados ou dignos do que você.

Eles estão colhendo frutos de um mundo que nós ajudamos a construir: com mais segurança, mais oportunidades, mais acesso à informação e mais liberdade.

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A Geração Z está colhendo frutos de um mundo que nós ajudamos a construir (Crédito: Shutterstock)

Se eles, vez por outra, reclamam de barriga cheia que “a Internet está uma merda” ou que “este celular é uma porcaria”, é porque alguma evolução muito incrível aconteceu nesses últimos anos. E, pra mim, é melhor que reclamem disso do que da falta disso. Ou da falta de água, de luz ou de comida.

Sim, sou daqueles que preferem ver alguém reclamando que a comida está ruim e deixá-los comer com cara de nojo do que vê-los passar fome.

Eu aprendi, com o tempo, a conviver com colegas e amigos da geração Z. Aprendi, através da convivência, a compreendê-los e a respeitá-los.E eu sei que foi um aprendizado recíproco (nós também temos muito a ensinar, sempre).

Se a gente conseguir respeitar mais, valorizar mais e admirar mais essas novas gerações, enxergaremos o futuro com um olhar bem mais otimista.

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Bruno Seidel

É fã de super-heróis japoneses, quadrinista nas horas vagas e entusiasta de futurismo. É sócio-fundador do Zoonk (zoonk.org). Trabalha como profissional de Criação na Assessoria de Comunicação e Marketing da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).

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