Cultura

No futuro, todos os livros do mundo estarão conectados a uma única rede

Estima-se que centenas de bilhões de livros foram publicados desde a invenção da prensa móvel, por volta de 1450. A invenção de Johannes Gutenberg destronou a palavra falada – a base da humanidade até então – para inserir a escrita na posição central de nossa cultura. Desde então, tudo mudou.

Com a possibilidade de fabricar cópias baratas e perfeitas, o texto impresso se tornou o impulsionador de inúmeras mudanças. A prensa tipográfica deu origem ao jornalismo, à ciência, às bibliotecas e ao direito. Livros produzidos em massa passaram a transformar a mentalidade de todos.

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A invenção da prensa móvel destronou a palavra falada (Crédito: Shutterstock)

A tecnologia da prensa tipográfica aumentou o vocabulário para integrar 1 milhão de palavras. A escrita despertou o senso crítico. Inconformados podiam escrever tratados para contestar a mentalidade da época. Ideias pouco ortodoxas passaram a ganhar influência suficiente para derrubar reinados.

Se, nos tempos antigos, éramos o povo da fala, a prensa nos tornou o povo do livro. E assim persistimos por muitos séculos, até o surgimento das telas digitais. Hoje, mais de 5 bilhões de telas iluminam nossas vidas. Computadores, smartphones, tablets e televisores estão nos tornando o povo da tela.

Choque cultural

Estamos vivendo agora um choque cultural. De um lado, o povo do livro. De outro, o povo da tela. Enquanto o primeiro privilegia soluções regidas por leis, o segundo enxerga a tecnologia como a solução para todos os problemas. Há uma batalha travada também dentro de cada um de nós.

É um momento de transição. O povo da tela lê palavras em páginas na Internet. O povo da tela visualiza, de maneira não linear, as letras de um videoclipe no YouTube e os créditos finais de um filme na Netflix. Já o povo do livro segue as normas imortalizadas nas obras, respeitando a autoridade dos autores.

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Estamos vivendo um choque cultural entre o povo do livro e o povo da tela (Crédito: Shutterstock)

O povo do livro quer manter o velho jeito de ler, e não a nova maneira de visualizar. O povo do livro não quer aceitar a ascensão dos livros digitais e teme que os livros físicos logo deixem de existir como norma cultural. O povo do livro se pergunta o que poderia substituir a estabilidade do livro em nossa cultura.

A ressignificação do livro

As folhas de papel estão desaparecendo nos dias de hoje. O conceito tradicional de livro – um volume manuseável de folhas encadernadas – está sendo ressignificado. Seu lugar está sendo assumido por dispositivos de leitura como tablets, pads, kindles e até mesmo os próprios smartphones.

Especialistas chegaram a jurar que ninguém jamais leria um livro em uma minúscula tela brilhante. Para a surpresa dos experts, milhões de leitores passaram a usar dispositivos de leitura. A Amazon vendeu mais de 36 milhões de Kindles desde o lançamento oficial do produto, em 2007.

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As folhas de papel estão desaparecendo nos dias de hoje (Crédito: Shutterstock)

Os e-books oferecem uma experiência única de leitura. Com eles, podemos recortar e cortar textos da página, interagir com as ilustrações e clicar nos hiperlinks dispostos na tela. Podemos compartilhar com nossos amigos nossos destaques e anotações nas “margens” dos e-books.

É bem verdade que existem limitações. Empresas como Amazon e Google ainda não autorizaram a liquidez dos e-books. Os leitores não podem copiar grandes trechos das obras ou manipular os conteúdos como bem entendem. Mas, na visão do futurista Kevin Kelly, esse cenário prestes a mudar.

O futuro da leitura

Em seu livro Inevitável (2016), Kevin Kelly argumenta que, mais cedo ou mais tarde, o texto dos e-books será libertado destas amarras e atingirá a extrema liquidez. Se hoje podemos sublinhar um trecho, amanhã seremos capazes de vincular trechos sublinhados por meio de links:

Haverá como vincular uma frase da obra que você está lendo a uma passagem de outra narrativa já lida, uma palavra específica ao verbete do dicionário ou determinada cena descrita em um livro a sua encenação cinematográfica. – Kevin Kelly

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Em seu mais recente livro, Kevin Kelly imaginou como será o futuro da leitura (Crédito: The Bulletproof Blog)

Esta densa rede de hiperlinks entre diferentes livros transformaria cada um deles em um evento em rede. Nenhum livro mais seria uma ilha na biblioteca universal. As obras não mais ficariam isoladas, independentes uma das outras nas estantes ou prateleiras. Tudo estaria conectado a todo momento.

Livros em rede

Mas, por mais surpreendente que a ideia possa parecer, o futurista Kevin Kelly assegura que este é apenas o primeiro passo. A revolução mesmo viria logo depois, com a inter-relação de documentos, a criação de links bidirecionais e a interconexão de todos os livros do planeta:

A verdadeira magia acontecerá no segundo ato, quando todas as palavras de todos os livros serão vinculadas por meio de links cruzados, agrupados, citados, extraídos, indexados, analisados, anotados, comentados e incorporados à cultura, com mais profundidade do que nunca. No novo mundo de e-books e e-textos, todos os bits fundamentam uns aos outros, todas as páginas leem umas às outras. – Kevin Kelly

Para mentalizar como esta revolução aconteceria, pense por um instante na Wikipédia. Se você acessá-la hoje ou depois, perceberá que a maioria de suas páginas está repleta de palavras marcadas em azul, indicando que estão ligados por hiperlinks a outros conceitos apresentados na enciclopédia.

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A Wikipédia é o primeiro livro em rede do mundo (Crédito: Shutterstock)

Este aspecto torna a Wikipédia o primeiro livro em rede do mundo. Com o tempo, todas suas páginas ficarão saturadas de links azuis, interconectando referências para cada palavra contida em cada texto existente na enciclopédia. É o que propõe Kevin Kelly:

À medida que todos os livros forem totalmente digitalizados, vão acumular cada vez mais trechos sublinhados em azul, conforme se forma uma rede em que cada referência literária vincula um livro a outros e assim sucessivamente. Cada página de determinada obra leva à descoberta de outras páginas e outras obras. – Kevin Kelly

Biblioteca de Tudo

Talvez o aspecto mais deslumbrante do futuro imaginado por Kevin Kelly seja que, à medida que os livros se ligam uns aos outros, eles formarão um gigantesco metalivro, reunindo em só lugar – e, paradoxalmente, em todos os lugares –, todo o conhecimento da humanidade.

Será o início de uma biblioteca universal. Será o começo da Biblioteca de tudo. Todos os livros do mundo estarão reunidos em uma única rede textual. Todos os documentos relacionados a qualquer bibliografia estarão disponíveis, em todas as línguas. Tudo estará conectado.

A história nos mostra que a Biblioteca de Alexandria, concebida em 300 a.C para abrigar todos os pergaminhos que circulavam no mundo conhecido, chegou a conter cerca de meio milhão de documentos, representando, segundo estimativas, até 70% de todos os registros produzidas na época.

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A Biblioteca de Alexandria chegou a conter cerca de meio milhão de pergaminhos (Crédito: Shutterstock)

Por milênios, a humanidade sonha em construir uma nova biblioteca universal, mas hoje nem mesmo o maior edifício do mundo conseguiria acomodar todo o conhecimento produzido. A biblioteca universal idealizada por Kevin Kelly não exigiria um lugar, mas, sim, um não-lugar.

A Biblioteca de Tudo conteria a presença líquida de todas as obras da história da humanidade. Tudo gratuitamente, a um clique de distância. E, quem sabe, as sinapses resultantes de toda a inteligência coletiva poderia finalmente conter as respostas para aquelas perguntas que sempre nos fizemos.

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Redação

Futuro Exponencial é um site que se dedica a cobrir os mais recentes avanços tecnológicos e seus potenciais impactos para o futuro da humanidade

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