Schumacher
Cultura

Renda-se: a visão holística de futuro da Schumacher College

A escola oferece uma experiência de reconexão com a natureza, geradora de todos os recursos

Schumacher College. Como foi? Difícil dizer. Ainda está sendo! Fazer um recorte de apenas uma fase do processo reduz a complexidade e desconsidera tudo o que me fez chegar lá.

Foi em 2013 que eu ouvi falar da escola pela primeira vez. Entendi que era algo relacionado a sustentabilidade, conectado com a natureza. Mas, por anos, meu conhecimento ficou restrito a esse conceito.

Ainda assim, nunca me esqueci desse nome: Schumacher College. Também não fui atrás, pesquisar sobre a escola ou sobre os cursos que ela oferecia. É como se eu soubesse que ela seria parte de mim, mas o momento ainda não havia chegado.

Schumacher College

A Schumacher College fica em Dartington, uma região privada (??), na cidade de Totness, ao sul da Inglaterra. É pequena, simples, diferente. É quase surpreendente perceber como essa instituição se difundiu tanto no nosso país, a ponto de hoje ter um braço verde-amarelo, a Escola Schumacher Brasil.

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“Liderança para a Transição”. Foi assim que, finalmente, esse momento se apresentou para mim. No programa, uma semana imersiva na sede inglesa, mais três encontros em São Paulo, além de interações online e sugestões de leitura. Mal sabia eu que o transição ali de cima não teria nada a ver com as mudanças do mundo, mas com uma nova economia.

Vou me permitir sublimar a parte sensorial da experiência (que é absolutamente incrível!) e focar na mensagem integradora que permeia todas as atividades desenvolvidas. Aliás, aqui cabe um destaque para o real significado da palavra holístico: adjetivo que significa a compreensão dos fenômenos na sua totalidade.

O conceito foi criado por Christiaan Smuts, em 1926, que o descreveu como “a tendência de usar a evolução criativa para formar um todo que é maior que a soma de suas partes”.

Visão global, economia local

A visão de futuro da Schumacher é uma mistura entre a globalização e o protecionismo que emergiu pós Brexit e vitória de Donald Trump. Tudo baseado nas premissas do livro “Small is Beautiful”, escrito pelo autor que deu nome a escola, Ernst Friedrich Schumacher.

A prática preza pelo consumo de produtos cultivados/feitos na região. Nada muito radical. É um redirecionamento do olhar. Apreciar o que é da casa, o que é local. Se não houver na região, busca-se no estado, se não houver no estado, procura-se no país, depois, no continente. E assim vai…

É claro que muito disso se reflete na comida. E comida por lá é coisa séria. E por aqui também! Nosso segundo encontro, desta vez em São Paulo, nos levou ao Espaço Zyn. Esse lugar, perdido no meio da selva de pedra da grande metrópole, é uma floresta particular com mais de 250 espécies que crescem umas por cima de outras.

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É o ponto focal da economia para a transição na cidade. A experiência por lá, guiada pela querida Claudia Madhav, foi cozinhar com ingredientes brasileiríssimos, porém desconhecidos de muitos em sua maioria. Butiá, buriti, cataia, babaçu, baru, cupuaçu, jatobá… é tanta riqueza de sabores que ficou difícil escolher.

A escola ressalta que a cultura, no entanto, deve sim ser global. Afinal, transição é sobre pessoas, não sobre coisas. E se tem uma coisa que é estimulada por lá, é justamente a apreciação pelas diferenças.

Gaia, a mãe de todos nós

Quando li o programa, fiquei muito curiosa para aprender sobre teorias de Gaia. O grande mestre desta teoria foi James Lovelock, que trouxe uma visão alternativa à matemática de Descartes.

Sua visão não exclui a matemática, mas promove uma direção mais imaginativa, aliada a conhecimento. Lovelock chama de Gaia a grande inteligência da Terra. Segundo o autor, o planeta não está morto, mas vivo. Se autorregula.

Tive o privilégio de participar de uma meditação guiada no meio da floresta. Foi uma conexão com o planeta. Aliás, foi uma multiconexão. Foi o momento em que me senti parte de um todo, de um organismo complexo e vivo, que se ajusta a cada situação.

Durante o exercício, o mentor Stephan Harding propôs uma visão interessante, de que lá, deitados nos cabelos de Gaia, estávamos de ponta cabeça, flutuando no espaço, e o que nos prendia àquela massa maior não era gravidade, mas sim o abraço da mãe Terra. Foi uma explosão de amor difícil de explicar.

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Apenas renda-se

Surpresa, surpresa. A aula que menos agradou a turma foi a que mais agradou a mim. Philip Franses falou sobre ciências holísticas. A mensagem principal foi essa: renda-se. Para mim, a mensagem mais forte de toda a experiência.

Philip falou sobre nossa mania (quase obsessiva, eu diria) por racionalizar e dar sentido a tudo o que acontece ao nosso redor. Em função disso, dividimos o todo em fragmentos facilmente analisáveis como partes, mas que no todo, agem de formas que nem imaginamos.

A ciência holística ensina a ouvir. Ouvir não um fragmento, mas a rede. É sobre entender a qualidade do todo. Sobre viver e conviver com o “não saber”. Sobre aceitar que, no início, ainda não entendemos e, justamente por isso, é preciso se render ao desconhecido e a falta de controle. É sobre apreciar o tempo.

Solo, Alma, Sociedade

A grande estrela da festa, é claro, foi o celebrado Satish Kumar. Autor de diversos livros, Satish passou uma manhã e uma noite, em torno da fogueira acesa em meio a floresta, falando sobre suas ideias e sonhos. Sua sabedoria, transmitida com convicção e generosidade, encanta. Abraça.

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Em seu mais recente livro, “Soil, Soul, Society“, Satish fala sobre uma nova trindade, que ressignifica nosso papel como líderes transformadores. Segundo ele, tudo vem do solo, da natureza. Corpos compostos pelos quatro elementos – terra, fogo, água e ar – que precisam estar perfeitamente equilibrados para funcionar.

O solo que nos permite cultivar, nutrir, gerar novas vidas. Combinado a ele, está nossa alma, soul. Uma parte que vai além da física, tornando-se metafísica.

É a compreensão de que somos um todo, de que conhecimento é importante, mas não é tudo, e de que precisamos cultivar as qualidades intangíveis. Por fim, sociedade. A celebração da diversidade. A não divisão. A criação de uma única comunidade humana. A visão global.

Satish fala mais. Fala de amor. Fala sobre a qualidade do coração para enxergarmos o bem em cada um. Apreciá-lo, celebrá-lo, cultivá-lo e fazê-lo crescer. É sobre buscar e compreender aquilo que está em nossos corações.

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Uma visão crítica

É claro, não me conectei a tudo o que aconteceu durante a semana. A Schumacher tem uma visão radical, ativista e avessa as novas tecnologias – ainda que sem ignorar a importância daquelas que passam desapercebidas por já não serem mais tão novidades assim.

Minha visão é diferente. Mas buscar conhecimento que esteja de acordo com o que penso seria apenas botar fermento em minha própria bolha.

Metodologia

Bem, a metodologia da Schumacher merece um capítulo à parte. Ela é aberta, ainda que baseada no conceito holístico de “mãos, coração, mente”, onde mãos se referem a reconhecer e entender os recursos disponíveis, coração é sobre como nos relacionamos com esses recursos e com os outros e mente sobre como gerenciamos essas relações e recursos.

Lá, aprendemos a ocupar o espaço com silêncio e a perceber – e se preocupar – com o que nossas vozes agregam ao grupo. Aprendemos sobre as limitações da linguagem e, justamente por isso, nos despimos de qualquer máscara, medo ou insegurança. É uma metodologia construída pelo todo, como o todo que somos.

E que dá certo! É a experiência prática do deixe estar, do se render.

A conclusão não final

Por toda essa complexidade, e por aceitar que fragmentar essa experiência seria reduzir a complexidade e, especialmente, a intensidade do que foi e está sendo vivido no curso, é que demorei tanto para escrever sobre ele.

Ainda hoje, sinto que não consigo alcançar a compreensão do que foi e está sendo essa experiência. Não sei se um dia alcançarei.

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Me incomodo com quem idolatra qualquer linha sem senso crítico e, por isso, me sinto na obrigação de reforçar que nem tudo se conecta com a gente. Mas vir aqui escrever sobre o que não conectou não teria a menor graça.

Especialmente porque o que conectou foi tão rico, que pode, sim, nos transformar em seres humanos melhores, com potencial para a criação de futuros desejáveis.

Por isso mesmo resolvi que era hora. Hora de me render a essa visão de futuro holística, bela e cheia de amor. Pois afinal, quem não gostaria de um futuro assim?

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Jornalista, curiosa e filósofa de boteco

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