Negócios

Futuro do trabalho e as lições do passado

Nos círculos de pessoas mais ligadas a tecnologia e inovação é comum que o tópico Futuro do Trabalho seja o tópico de maior interesse. Entendemos que estamos num momento de avanço inédito em que o conceito de desemprego tecnológico venha a ocorrer por conta do avanço em diversos campos, especialmente o da Inteligência Artificial.

O número de trabalhos perdidos para máquinas mais eficientes é somente parte do problema. O que preocupa muitos especialistas em trabalho é que a automação possa impedir a economia de criar novos trabalhos(…) Por toda a indústria, a tendência tem sido de maior produção com uma menor força de trabalho(…) Muitas das perdas nas fábricas foram compensadas por um aumento na indústria de serviços ou em trabalhos de escritórios. Mas a automação está começando a se mover e eliminar trabalhos de escritório também(…) No passado, novas indústrias contratavam muito mais pessoas do que demitiam. Mas isso não acontece nas indústrias de hoje(…) Hoje, novas indústrias têm comparativamente menos trabalhos para os menos qualificados, apenas a classe eliminada pela automação.

As palavras acima soam bastante atuais, mas saíram na publicação da revista TIME de 21 de Fevereiro de 1964. Da mesma forma, décadas antes, no ano de 1930, o economista John Maynard Keynes escreveu um artigo chamado Economic propspects for our grandchildren (Possibilidades econômicas para os nossos netos) no qual se propunha a imaginar o mundo a 100 anos daquele momento.

Nesse artigo, Keynes imaginava que em algum momento até esses 100 anos estaríamos trabalhando 15 horas por semana, o que certamente soa irreal para qualquer “neto de Keynes” que esteja aqui em 2018.

Previsões apocalípticas em relação aos impactos da automação não são novidade, como podemos perceber. E mesmo gente que alerta para o impacto da automação sobre o emprego hoje em dia, como Andrew McAfee, reconhece isso.

Evidentemente, mesmo que o mundo não tenha chegado a uma era pós-trabalho, apesar das mais variadas previsões ao longo do tempo, existe a chance de que o avanço tecnológico cause um impacto definitivo no futuro e não devemos descartar essa possibilidade.

Mas há uma constatação que me faz tender para aqueles que tem um olhar mais cético quanto à previsão catastrófica. A despeito do sempre presente, e cada vez mais veloz, avanço tecnológico, a nossa jornada de trabalho pouco tem mudado ao longo das últimas décadas. Aliás, temos visto até mesmo casos de aumento da jornada de trabalho.

futuro do trabalho 01

Como explicar essa contradição de mantermos a jornada de trabalho no mesmo patamar (e até mesmo considerar aumentá-la) enquanto morremos de medo de robôs tirando nosso emprego? A melhor explicação que encontrei aponta para a Grande Depressão em 1929.

Até aquele momento, havia um forte movimento de sindicatos pela redução da jornada de trabalho, e de fato é o período onde vimos a redução mais aguda do número de horas trabalhadas. Com a crise, sindicatos passaram lutar pela manutenção e até mesmo aumento da jornada para diminuir o risco de que operários fossem demitidos.

Como efeito disso, passamos a enxergar o trabalho como algo diferente e o tempo livre também, cada vez mais sendo evitado, sendo percebido como algo que remetia ao desemprego.

Uma visão mais crítica com relação ao trabalho de hoje em dia vem de David Graeber, antropólogo norte-americano. Graeber acha que estamos trabalhando 15 horas por semana, tal qual imaginou Keynes, com a diferença que o resto do tempo que passamos nos locais de trabalho seria apenas enrolando para justificar a existência de nossos empregos.

Seria então nosso desejo de manter a nós mesmos ocupados uma força mais poderosa que o avanço tecnológico no que diz respeito à geração de empregos? É difícil afirmar isso, mas alguns dados nos obrigam a, no mínimo, repensar como imaginamos o futuro e a maneira como nos ocuparemos.

87% dos trabalhadores no mundo não estão engajados com seus trabalhos, de acordo com a Gallup (se você viu minha palestra na Exponential Conference, eu disse 83% e me equivoquei – é pior ainda). O quão produtivos seríamos se esse número de engajamento fosse melhor? Será que máquinas tornariam humanos engajados obsoletos?

Falando em produtividade, sobram evidências de que a partir de certo ponto horas adicionais de trabalho geram pouco valor e reduzem a produtividade. Ainda assim, e a despeito do avanço tecnológico, temos trabalhado tanto quanto as gerações anteriores.

E pior, dependendo do meio onde você se encontra, o discurso de romantização de uma ética de trabalho insalubre é forte. Como podemos ver, esse discurso tem pouco a ver com produtividade e entrega concreta.

futuro do trabalho 02

Falando por experiência pessoal, já me gabei de ficar até mais tarde no escritório enquanto colegas que tinham um compromisso maior demonstravam maior produtividade – mas a cultura presenteísta é mais aceita no ambiente de trabalho do que falar de produtividade. Já virei noite fazendo tarefas dentro de uma cultura de trabalho tóxica para depois descobrir que fazia as mesmas tarefas 4 vezes mais rápido se estivesse descansado.

E qual a garantia de que trabalho seja um meio de garantir uma existência digna a todos? Millenials são uma geração marcada por entrarem no mercado de trabalho em meio a uma transição tecnológica, um cenário econômico completamente desfavorável e precarização do trabalho.

Esta pode ser a primeira geração da história a terminar a vida mais pobre que os pais, a despeito de todo o avanço tecnológico. A discussão sobre futuro do trabalho também precisa perpassar pela questão material para a geração millenial, que tem sido bastante delicada.

futuro do trabalho 03

(Softwares e TVs nunca estiveram tão baratos. Não podemos dizer o mesmo de alimentação, habitação, saúde e educação)

Portanto, quando formos discutir futuro do trabalho, não devemos olhar somente para a Inteligência Artificial (que ainda está engatinhando). Devemos observar também se temos um sistema que permita às pessoas fazer o que melhor elas fazem e garantir a elas condições dignas.

No presente do trabalho esses são problemas que estão longe de estarem resolvidos.


Interessado no tema ‘Futuro do Trabalho’? Leia mais sobre o Futuro do Trabalho aqui.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER SEMANAL

Eduardo Azeredo

Consultor de negócios e gestor de projetos ligado em novas tecnologias. Já atuou com coisas diversas como implementação de ERP e a criação de uma aceleradora de startups. Se considera um otimista entre os pessimistas e um pessimista entre os otimistas.

ARTIGOS RELACIONADOS

Comentários no Facebook

Leia também

Fechar