Educação

Futurista ou futuróloga?

Tenho visto recentemente algumas iniciativas, cursos e encontros interessantes introduzindo a Futurologia e os que assinam como futurólogos. Fico pensando no tempo que passei desde o meu Mestrado em Estudos do Futuro há 15 anos, nos Estados Unidos, com o maior receio toda vez que ia me apresentar profissionalmente na volta ao Brasil. Futurista ou futuróloga?

Com diploma na mão e precisando desmistificar os preconceitos com relação a uma profissão ainda tão desconhecida e mal compreendida, resolvi explicar que não leio cartas, não uso bola de cristal, nem prevejo qualquer coisa.

Esse sempre foi o receio de muitos os que decidiram trilhar pelo caminho acadêmico do futuro. Por que esse receio?  Porque durante décadas desde os anos 50, muitos daqueles que se dedicaram a prever o futuro depois da Segunda Guerra foram questionados, até ridicularizados.

Desde o Herman Kahn, que propôs ao governo brasileiro transformar a Amazônia num grande lago para facilitar o  comercio internacional (o que seria da floresta?), até o grupo do Clube de Roma, que previu que nos anos 70 o mundo iria acabar por conta da fome e da destruição ambiental.

São poucos os dotados do dom da previsão, exceto os clarividentes ou todos os que têm contato direto com o ocultismo.

Futuristas não fazem previsões

Em abril do ano 2000, no meu primeiro dia de aula lá na Universidade de Houston, em Clear Lake, do lado da NASA (que na época era sediada no Texas), Peter Bishop, diretor do mestrado, fez questão de escrever no quadro de entrada em letras bem grandes:

Futuristas não fazem previsões. – Peter Bishop

Isso me surpreendeu na época. Depois fui aprendendo que, em vez de prever o que vai acontecer, a proposta era me capacitar para orientar pessoas e organizações para o que poderá ou deve acontecer. Nada de determinismo. O futuro nunca foi singular nem destino.

O caráter plural do futuro é que sempre trouxe sentido ao meu trabalho. De que serviria estudar o futuro se ele fosse um só? Não haveria sentido na profissão se não pudesse lidar com as possibilidades, os múltiplos caminhos de escolha.

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O caráter plural do futuro é que sempre trouxe sentido ao meu trabalho (Crédito: Shutterstock)

Por tentar conferir credibilidade a essa nova profissão, tendo sido a primeira brasileira a me formar nessa disciplina,  sempre tive cuidado com a palavra “futurologia” que sempre me remeteu a algo místico, pela sonoridade de caráter premonitório, bem dentro do campo das adivinhações, com direito a um cenário decorado com turbante, estrelinhas e bola de cristal.

Não que eu tenha algo contra o ocultismo. Pelo contrário. Sempre fui atraída por ele. Mas não poderia me apresentar como alguém que, depois de ter estudado tanto para obter uma Certificação de Master of Sciences, fosse mal interpretada por preconceituosos.

Onde estaria toda a ciência, toda a metodologia que aprendi para obter e analisar informação (e trafegar no mundo empresarial) se eu passasse a me chamar de futuróloga? Não seria confundida com taróloga?

Futurista ou futuróloga?

Dai então resolvi adotar outra nomenclatura, assim como fizeram muitos dos meus colegas pelo mundo. Todos passamos a ser futuristas.

Na América Latina, por influência da escola da Prospectiva (versão francesa de Futurismo) temos os prospectivistas.  Sutilezas semânticas? Pode ser.

Mas o sufixo “logia” normalmente remete ao esoterismo, e futurismo não é esoterismo. É iluminar com técnica de análise e sutileza o olhar para oportunidades que vêm com as mudanças; são os que aprendem a pensar de forma  sistêmica, mais profunda e com maior alcance no tempo para analisar a complexidade das mudanças e os seus impactos sobre a realidade em foco.

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O mundo mudando rápido demais e a crise desafia todos a encontrar saídas mais criativas (Crédito: Shutterstock)

Detectam com método e intuição sinais que muitos não captam. Aquilo que tem poder para mudar o destino do que está em jogo. Futurismo é disciplina interdisciplinar.

Aprendi pensamento sistêmico, mudanças sociais, estatística, metodologias quantitativas e qualitativas, geopolítica, e também métodos intuitivos. O futurismo tem mais a ver com antecipação do que previsão, muito menos com adivinhação. Por isso tenho evitado utilizar o termo “futurologia”.

Mas como o mundo está mudando rápido demais e a crise desafiando todos a encontrar saídas mais criativas, num território onde quase tudo pode, vejo crescer o interesse pelo futuro e abrirem-se as portas para a futurologia. Que sejam muito bem-vindos os futurólogos e o interesse pelo futuro.

Afinal, é o resto do tempo que existe para reorientarmos nossos planos ou reinventarmos nossa forma de estar no mundo. Quem sabe, daqui em diante, de futurista, eu passe a me chamar de futuróloga?


Publicado originalmente no Diário do Comércio

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Rosa Alegria

Futurista profissional, palestrante, pesquisadora de tendências e Mestre em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston (EUA)

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