possível adjacente
Inovação

Explorando o possível adjacente em uma era de profundas transformações

O mundo é capaz de mudanças extraordinárias, mas apenas certas mudanças podem acontecer

Todo aquele que se interessa por tecnologia e inovação provavelmente irá se deparar, mais cedo ou mais tarde, com uma expressão ligeiramente estranha, mas muito impactante: o possível adjacente.

O termo, muito usado hoje em dia no campo das inovações, tem uma origem bastante curiosa. Mas, para entendê-la, devemos fazer uma breve viagem no tempo.

O possível adjacente e a sopa primordial

A origem da vida é um dos temas mais misteriosos, polêmicos e complexos de todos os tempos. Muitos estudiosos se dedicaram – e muitos se dedicam até os dias de hoje – a entender de que forma moléculas se tornaram organismos vivos ao longo dos séculos.

Para alguns, a vida surgiu do espaço cósmico; para outros, ela se originou de vulcões submarinos. Apesar de todos os esforços, e mesmo com todas as teorias desenvolvidas, até o momento não temos um consenso científico em relação à origem da vida.

O que sabemos é que a Terra, ainda “sem vida”, era dominada por moléculas básicas, como água, nitrogênio, hidrogênio e metano. Cada uma dessas moléculas era capaz de uma série de transformações com outras moléculas na chamada sopa primordial.

Pense por um segundo em todas essas moléculas iniciais. Imagine agora todas as possíveis combinações – combinações de primeira ordem – que elas poderiam formar de modo espontâneo, simplesmente colidindo umas com as outras. Centenas, milhares, milhões?

Mesmo sem conhecermos noções avançadas de química ou biologia, poderíamos supor que todas essas transformações seriam capazes de criar alguns elementos básicos da vida, mas não seriam capazes de criar todos os elementos.

Poderíamos até imaginar duas moléculas aleatórias se unindo e formando uma molécula de água. Mas não conseguiríamos imaginar que essa mesma combinação originasse, por exemplo, um girassol.

Embora os elementos atômicos que constituem um girassol sejam os mesmos disponíveis nessa Terra primitiva, não seria possível criar tal planta naquele ambiente, porque ela se baseia em inovações subsequentes que levariam bilhões de anos para se desenvolver.

O conjunto de todas essas combinações de primeira ordem – capazes de originar alguns elementos, mas não todos os elementos – é chamado pelo cientista e biólogo teórico Stuart Kauffman de “o possível adjacente”.

O possível adjacente abrange todas as combinações que eram diretamente alcançáveis na sopa primordial. O termo abarca todas as reações possíveis dentro daquele universo de moléculas – um número bastante amplo, mas, ao mesmo tempo, finito.

A maioria das formas que hoje habitam a biosfera não poderiam ser criadas com aquelas combinações iniciais. Voltando ao exemplo do girassol, a planta poderia ser, sim, gerada, mas não naquele momento, não na junção daqueles elementos.

Assim, poderíamos dizer que a criação de um girassol, ao menos naquele momento inicial da Terra, estava além dos limites do possível adjacente.

O possível adjacente no campo das inovações

O escritor norte-americano Steven Johnson foi o verdadeiro responsável por transportar o interessante conceito de Kauffman para o campo das inovações, no best-seller Where Good Ideas Come From (2011).

Ao estudar mais o conceito, Johnson percebeu que o possível adjacente é um padrão importantíssimo que reaparece ao longo de toda a evolução da vida. Para ele, a trajetória da evolução pode ser descrita como uma exploração contínua do possível adjacente.

Para o autor, o possível adjacente é como se fosse um mapa de todas as maneiras pelas quais o presente pode se reinventar. A qualquer momento o mundo é capaz de mudanças extraordinárias, mas apenas certas mudanças podem acontecer.

O possível adjacente explica, por exemplo, porque inúmeras inovações tecnológicas fracassaram ao longo da história. No livro, Steven Johnson traz dois casos interessantes da história das inovações, nos mostrando que muitas vezes uma ideia pode ser ótima, mas o momento em que foi desenvolvida não era o adequado.

Charles Babbage e a máquina analítica

O inglês Charles Babbage (1791-1871) é considerado, pela maioria dos historiadores da tecnologia, como o pai da computação moderna. A titulação se deve porque, durante os últimos trintas anos de sua vida, Babbage idealizou aquele que viria a ser o projeto mais brilhante de sua carreira: a máquina analítica.

A máquina analítica foi o primeiro computador programável do mundo, pelo menos no papel. Como todos os computadores modernos, era capaz de se adaptar, se metamorfosear e se reinventar com base nas instrucões evocadas por sua programação.

Apesar de todo o brilhantismo de Babbage, cujas ideias poderiam transformar o mundo na época, a máquina jamais chegou a ser concluída em vida. A curto prazo, se tornou um beco sem saída e, consequentemente, acabou desaparecendo do mapa.

Mas por que exatamente isso ocorreu? Para Steven Johnson, uma maneira elegante de responder é porque as ideias de Babbage escapavam dos limites do possível adjacente. O inventor inglês simplesmente não dispunha das peças sobressalentes certas na época.

Mesmo que Charles Babbage tivesse construído uma máquina segundo suas próprias especificações técnicas, e recebesse aporte financeiro para apoiar o desenvolvimento, não havia garantia de que equipamento funcionaria.

Na verdade, ele tinha esboçado uma máquina para a era eletrônica quando a evolução mecânica movida a pavor ainda estava em curso. Em síntese, a ideia estava certa, mas o ambiente ainda não estava pronto para ela.

O mesmo não se pode dizer de outra iniciativa advinda dois séculos depois.

E se o YouTube tivesse sido fundado em 1995?

O YouTube foi fundado em fevereiro de 2005 por Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim, três ex-funcionários do site de pagamento online PayPal. O sucesso da startup foi tamanho que, em 16 meses depois da fundação, o serviço transmitia mais de 30 milhões de vídeos por dia. Dentro de dois anos, já era um dos dez sites mais visitados da web.

A iniciativa dos três jovens transformou por completo o modo como a informação em vídeo era compartilhada online. De uma startup financiada com os cartões de crédito pessoais de Hurley, o YouTube passou a valer US$ 1,65 bilhão.

O Google viu uma oportunidade única e adquiriu a empresa em 2006. Hoje, o YouTube está avaliado em mais de 70 bilhões de dólares, figura entre os três sites mais acessados de toda a Internet, sendo visitado por mais de 22 bilhões de pessoas todos os meses.

O intessante na história do YouTube é que, segundo Steven Johnson, se Hurley, Chen e Karim tivessem colocado a ideia da startup em prática dez anos antes, em 1995, o projeto provavelmente teria sido um grande fracasso:

Em primeiro lugar, a grande maioria dos usuários possuía conexões discadas penosamente lentas, que podiam por vezes levar minutos para fazer o download de uma imagem pequena. (O download de um clipe médio do YouTube, com dois minutos de duração, teria demandado nada menos que uma hora para os modens de 14,4bps comuns na época). Outra explicação para o sucesso imediato do YouTube é que seus criadores puderam basear o serviço de vídeos na plataforma Flash da Adobe, o que significava que podiam se concentrar na facilitação do compartilhamento e discussão dos clipes, não precisando gastar milhões de dólares para desenvolver todo um novo padrão de vídeo a partir do zero. Mas o próprio Flash só foi lançado no final de 1996, e nem sequer suportava vídeos até 2002. Steven Johnson

Em outras palavras, nos primórdios da Internet um site para compartilhamento de vídeos, como o YouTube, não estava no seu possível adjacente. Mas, com o aprimoramento da velocidade de conexão e o desenvolvimento da plataforma Flash, os jovens Hurley, Chen e Karim conseguiram tornar a empresa um sucesso.

É dizer: a ideia estava certa, e o ambiente estava pronto para ela. 

O ambiente de hoje estará pronto para novas ideias?

A boa notícia trazida por Steven Johnson é que os limites do possível adjacente estão se ampliando cada vez mais. Estamos vivendo uma época acelerada, em que inovações tecnológicas estão surgindo em intervalos cada vez menores.

Cada descoberta está originando novos caminhos a ser explorados e estabelecendo novos limites no possível adjacente. É como estivéssemos em uma grande casa, que se expande a cada porta aberta:

possível adjacente porta

A história do progresso cultural costuma ser a história de uma porta que leva a outra, permitindo a exploração de uma sala do palácio de cada vez. A abertura de cada nova porta pode conduzir a uma descoberta científica capaz de transformar o mundo.

Às vezes, alguém consegue ter uma ideia que nos transporta para certas salas adiante, saltando passos extraordinários no possível adjacente. Por isso, é importante descobrir maneiras de explorar os limites de possibilidade ao nosso redor.

A própria ideia da World Wide Web explorou o possível adjacente de seu meio de modo muito mais rápido que qualquer outra tecnologia de comunicação na história.

Ambientes inovadores estão surgindo em todos os cantos do mundo, estimulando novos modos de recombinar as peças sobressalentes e ajudando seus habitantes a explorar o possível adjacente.

Há um sem-número de caminhos abertos a cada nova ideia. Cabe a todos nós liberar o possível adjacente e ajudar a humanidade a atingir o seu potencial.

Vamos construir – juntos – nossos próprios palácios?

ASSINE NOSSA NEWSLETTER SEMANAL

Futuro Exponencial é um site dedicado a cobrir os mais recentes avanços tecnológicos e seus potenciais impactos para o futuro da humanidade. Contate-nos: contato@futuroexponencial.com

Comentários no Facebook