Inovação

Eureka: a inovação e o processo do insight

O insight, aquele lampejo de pensamento que nos faz brilhar os olhos, momento de descoberta e/ ou invenção de algo que chega a emocionar, que podemos entender como divisor de águas no entendimento de um processo ou fenômeno, e que, em decorrência disso, ocorre uma mudança de seu rendimento ao deixar de ser incremental, o famoso “ajuste fino”, e ocorre um salto qualitativo na forma e na substância, de modo que podemos claramente distinguir o “antes” e o “depois” – vide quando inventaram os motores à combustão que foram adotados posteriormente nos automóveis e se perguntássemos para alguém na época o que gostariam como solução para o transporte urbano, responderiam provavelmente “um cavalo mais rápido”.

Podemos notar que no exemplo citado a invenção desse novo “algo” induz a criação de aplicações que podem não necessariamente ter um uso óbvio, e um novo comportamento é estabelecido no uso dessa aplicação e “normas” são criadas para regular o seu uso.

Tecnologias que são tidas como vanguarda hoje, como VR (Realidade Virtual) e AR (Realidade Aumentada), tiveram origem na época da Guerra Fria e muito do seu desenvolvimento se deveu aos investimentos na corrida espacial que nos propiciaram muitas das tecnologias que temos no dia a dia atualmente. Interessante observar que uma nova corrida espacial se desenha entre atores não estatais nesse quase limiar da terceira década do século XXI.

A Inteligência Artificial é um campo de conhecimento que também já possui mais de meio século de desenvolvimento e que graças à grande capacidade de processamento das GPUs (processadores gráficos das placas de vídeo) e novas técnicas que foram desenvolvidas na área de redes neurais (Deep Learning), ficou algo comum ouvirmos no noticiário que um novo recorde foi estabelecido por um novo supercomputador ao solucionar problemas tidos antes como quase virtualmente “impossíveis” de serem atingidos, por uma série de metodologias e heurísticas que possibilitam que um computador “entenda” a linguagem humana e suas nuances e consiga fazer sua tradução simultânea, coisa que requereria até pouco tempo atrás pessoas especialmente treinadas para desempenhar tais funções.

O  insight não é algo que geralmente ocorre do “nada”

A ligação que quero tentar estabelecer é que o insight não é algo que geralmente do “nada” ocorre. Muitas vezes é fruto do trabalho incremental de muitas pessoas e de várias áreas distintas que em seus esforços contribuem para aumentar o “potencial” disruptivo de outras pessoas, que sendo capazes de juntar os “pedaços” de informação espalhadas no infinito de possibilidades, acabam vislumbrando novas aplicações e novas formas de fazer “algo” que por fim geram aplicações derivadas, que acabam gerando alterações de comportamentos na sociedade e tendo externalidades positivas ou negativas dependendo das intenções e incentivos que são estabelecidos para seu uso.

Quando me refiro a incentivos, tento trazer um conceito da Economia Comportamental chamado de “nudge”, em que podemos estabelecer incentivos que estimulem o uso “positivo” de algo, de modo que um novo comportamento não traga consequências negativas para seu usuário e pessoas ao redor.

Há uma frase interessante do físico inglês Isaac Newton que uma vez disse

Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.

Às vezes uma tecnologia, metodologia ou invenção só tem seu uso contemplado pela maioria das pessoas, uma vez que suas aplicações fiquem “claras” para seus usuários e que tragam uma percepção de seu “valor” e benefícios superiores às tecnologias até então adotadas para resolver um problema.

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O  insight não é algo que geralmente ocorre do “nada” (Crédito: Shutterstock)

Quando me refiro a um problema, falo no mais amplo sentido, agrupando desde modelos de negócio que não mais respondem aos desafios impostos pelos tempos atuais, metodologias e processos estabelecidos que geram externalidades negativas, assim como comportamentos e convenções que perderam seu prazo de validade por mudanças de paradigma, de formas de se encarar o mundo e de “sentido” em termos de significado e contexto, que podem ser representadas na expressão alemã “Zeitgeist” que significa “espírito do tempo” ou da “época” e que envolve no meu entender a “ética” e a “cultura” de uma época, da Filosofia diria até mais, envolve a “práxis” de uma sociedade, a forma como a “ética” é praticada no cotidiano e no ambiente.

Os processos que ordenam os fluxos de informações nas empresas, muitas vezes são ordenados de tal forma a produzirem “entregáveis” que podem ser mensurados de maneira qualitativa e quantitativa. A inovação no contexto corporativo geralmente é dividida em “incremental” e “disruptiva”.

A inovação incremental, também chamada de “kaizen” é realizada quase que de maneira cotidiana, ao se tentar melhorar continuamente um processo por um longo período de tempo, nos quais os ganhos acumulados geram grandes diferenças nos resultados.

A inovação disruptiva ocorre com mudanças de mentalidade, mudanças de modelos de negócio e tecnologias que alteram a forma de se atender à uma demanda do consumidor, por exemplo do surgimento dos smartphones, com a introdução do Iphone em 2007.

A inovação constante em uma organização atualmente pode ser entendida como condição mandatória para a sua perenidade e rentabilidade. O investimento em inovação pode ser entendido como em Pesquisa & Desenvolvimento, mas não deve ficar restrito apenas ao Departamento de Engenharia e/ou Design de Produtos.

Os profissionais que queiram se sobressair e achar seu espaço devem também sempre buscar seu próprio plano de desenvolvimento de habilidades e potencialidades. Entendo que em momentos difíceis, acabamos descobrindo habilidades que antes desconhecíamos e de tanto tentar e experimentar, formulamos novas formas de produzir e/ou fazer “algo”.

O “lampejo” do insight

Muitas das “inovações” e “invenções” ocorrem “sem querer” ao tentar fazer alguma coisa e acabamos por descobrir “algo” como um efeito “colateral” do processo, momento este em que surge o “lampejo” do insight de uma nova aplicação para aquilo. A necessidade, já ouvi inúmeras vezes, é a mãe da invenção, mas uma mente aberta é necessária para poder “captar” o que o “universo” acaba por nos comunicar, mesmo que sem querer.

Entendo que esse processo denominado “pensamento lateral”, surge justamente do cérebro identificar um padrão que ele reconhece, e ao tentar traduzir isso, acaba adaptando a solução de um problema conhecido para uma outra realidade em outro contexto. Por consequência, entendo que ocorre o mapeamento e tradução de problemas e soluções de alguma forma similares, de uma área do conhecimento para outra.

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A experimentação é a chave para muitas das metodologias (Crédito: Shutterstock)

Vejo o processo de inovação atrelado também ao de Gestão do Conhecimento, envolvendo a coleta, processamento, análise e síntese dos dados, com o estabelecimento de hipóteses, testes e mensuração de resultados, de forma a mapear o universo de problemas e de soluções.

A experimentação é a chave para muitas das metodologias em voga hoje, do Scrum ao Design Thinking e o de Design de Serviço. O “mindset” que virou norma nas empresas mais competitivas do mundo é o foco na experiência de uso e no chamado “Design centrado no usuário”.

Atrelada à experimentação, há de se ter a mensuração na forma de indicadores e dados e o feedback num loop iterativo de retroalimentação que melhore de forma contínua o processo, para que possa ocorrer a análise e síntese das descobertas e a geração de “conhecimento” para a empresa.

Muito tem se falado em Inovação aberta, co-criação e novas formas de organizar as equipes em “squads” de forma a potencializar o fluxo de colaboração e de informações, de forma a potencializar e alavancar resultados.

Tudo isso é muito válido e relevante, mas me preocupo também na formação de uma cultura voltada para a inovação, no estilo da cultura “Lean Startup” que propiciou a criação do que é hoje o Vale do Silício na Califórnia.

A criação de uma cultura que suporte o processo de inovação, engloba o suporte da Diretoria e acionistas da empresa de um lado e o “empoderamento” de quem está na linha de frente e conhece bem a operação, sendo capazes de juntos liderarem as iniciativas da área, e o que tem sido muito comum em algumas empresas, o líder de um projeto de inovação muitas vezes acaba sendo quem teve a ideia inicial e times são formados vindos de áreas distintas da empresa para suportar o projeto.

A co-criação entendo que deve ser estimulada e potencializada com estratégias que permitam que vire uma engrenagem que acabe por se perpetuar no tempo, garantindo assim novos ciclos de colaboração e inovação.

A criação de uma cultura voltada para a inovação, um dos pilares do processo da Transformação Digital, na minha visão também deve ser centrada em dados, que serão os “insumos” que darão vida e nutrirão os processos colaborativos.

O processo colaborativo deve adotar uma estratégia de Governança de Dados, de forma a evitar a formação de “silos” e “variações” na verdade dos dados e que deve fazer uso de um processo de validação (veracidade) e autenticação deles, com a contínua alimentação dos fluxos de informações na empresa, quando possível se valendo de um repositório central (Data Lake) que evite o retrabalho de entrada de dados e automatize o que for possível, garantindo assim o melhor uso do tempo dos colaboradores para se focarem em atividades de maior valor agregado.

O uso de Inteligência Artificial nas empresas se dará para atividades repetitivas e que exigem um robô “humano” para desempenhar. Vivemos tempos que as maiores habilidades cognitivas humanas serão mais valorizadas, atentando-se para a capacidade de resolver problemas complexos, pensar de forma abstrata com uso da criatividade e imaginação, colaborar e trabalhar em equipe e a capacidade de empatia para com o próximo, a sociedade e com o consumidor.


Mais sobre insight, formação do processo de insight e processos criativos aqui.

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Renato Azevedo Sant'Anna

Renato Azevedo Sant'Anna tem 35 anos, trabalha atualmente como Estrategista Digital / Consultor de Insights & Data Intelligence. Graduado em Engenharia da Computação e MBA Analytics em Big Data pela FIA e MBA em Marketing pela FGV. Tem experiência com Inteligência de Negócios em canais digitais desde 2011.

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