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Cultura

E se todos mortos voltarem à vida?

Você já chegou a imaginar um mundo onde ninguém precisa morrer?

Uma das pautas que mais me fascina no Futurismo é a chamada Singularidade e a iminente possibilidade que o ser humano tem de, finalmente, vencer a morte e “evoluir” para uma espécie mais avançada. Alguns enxergam isso com medo, desdém ou “presságio do Apocalipse”. Mas eu vejo com empolgação e com uma vontade enorme de fazer parte dessa transformação. Acredito que a tecnologia ainda vai melhorar muito a nossa vida e que nos dará coisas que a religião e a filosofia até o momento só prometeram.

Já refleti muito (mas muito mesmo) sobre as promessas do Ray Kurzweil, de que chegaremos na Singularidade daqui a 28 anos. Confesso que discordo da precisão dessa data. Mesmo compreendendo a curva da evolução exponencial, eu vejo 2045 como algo próximo demais.

Mas é aquela velha história: água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Uma hora, a Singularidade vai acontecer (ou seja: acho pouco provável a outra previsão que acredita na extinção da espécie humana antes do pulo do gato).

E quando esse dia chegar (seja 2045 ou depois)? Já chegou a imaginar um mundo onde ninguém precisa morrer? 

Um mundo onde você pode fazer backup do seu cérebro e sobreviver a qualquer tipo de fatalidade, pois sua mente estará “nas nuvens” e à prova de qualquer acidente. Fazer um backup do seu cérebro poderá ser como fazer um backup da sua conta de celular quando você perde ou estraga seu aparelho.

Pois é, eu já pensei muito sobre isso. Acho pouco provável que as pessoas percam por completo seus objetivos de vida e que se atirem numa vida desregrada, se drogando ou se masturbando em vias públicas. Tá… talvez isso aconteça mesmo, mas não será a regra. 

Que vai ser um mundo absurdamente diferente desse que temos hoje, não há dúvidas. Mas e quais seriam os objetivos da raça humana depois da tão sonhada imortalidade premiada? O que nos moveria?

A curiosidade de descobrir se existe vida em outros planetas? Uma eterna luta por prazer e acasalamento? Poderia ser a resposta para perguntas como “De onde viemos?”, “Pra onde vamos?”, “O ovo ou a galinha?”, “Michael Jackson era mesmo pedófilo?”…

Perdendo o ‘melhor da festa’

Mas eu tenho outro palpite: por que não reviver as pessoas que chegaram atrasadas na fila da imortalidade? Pessoas que já morreram e que ainda vão morrer até 2045 (ou seja lá quando essa porra chegar).

Porque uma coisa é certa: se a imortalidade chegar um dia depois da morte de sua mãe ou do seu pai (ou de qualquer ente querido), você vai ficar MUITO PUTO com isso, né? Na minha opinião, vai chegar depois de todos nós batermos as botas. Mas essa é só a minha opinião.

Seria chato a gente evoluir e trabalhar tanto por isso para, no final das contas, perder “o melhor da festa”. Mesmo que estejamos construindo os caminhos para as futuras gerações, esse alento ainda me incomoda. Eu quero viver para ver!

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Afinal, quem quer perder “o melhor da festa”? (Crédito: Shutterstock)

Então me recorreu um pensamento que também faz parte das ambições mirabolantes de Ray Kurzweil: ele pretende, num futuro próximo, trazer seu falecido pai de volta à vida. Repare que já não estamos mais falando em “manter vivo” e sim “transformar mortos em vivos”. É algo ainda mais complicado. Bem mais complicado!

Essa parte de backup cerebral (iniciativa bancada pelo magnata russo Dmitry Itskov) até vai, mas e o que fazer com cérebros de pessoas que já bateram as botas há mais tempo? O que fazer com aquelas pessoas que foram cremadas e tiveram seus cérebros transformados em pó?

Todo mundo deveria ter a chance de ressuscitar

O que fazer com aquelas que morreram sem deixar herdeiros ou sem convívio social para serem lembradas pela posteridade? Vou ser igualitário agora: acho que todo mundo (todo mundo) deveria ter a chance de ressuscitar. Não só quem nasceu ou ainda vai nascer numa época “privilegiada”.

A questão é: como trazer de volta essas pessoas?

Bom… a primeira informação que devemos ter bem clara é: quando esse assunto for discutido seriamente e se tornar um objetivo para a comunidade científica (ainda não é), já estaremos num ponto bem mais avançado na curva da evolução exponencial. Já teremos nosso “Google Brain”.

Seremos como a personagem principal do filme Lucy (quem assistiu vai entender). Teremos acesso instantâneo a informações que hoje só são adquiridas com horas de busca na Internet.

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Em Lucy, a protagonista tem a capacidade de adquirir conhecimento instantaneamente (Reprodução/YouTube)

Seremos super-humanos bilhões de vezes mais inteligentes! E é lógico que, quando a raça humana toda for assim (e não somente uma Lucy), tudo será completamente diferente. Não me pergunte exatamente como.

Já pensou como será a realidade virtual até lá? Pense num Oculus Rift bilhões de vezes melhor. Agora pense que um estudo avançado sobre átomos, partículas e mecânica quântica poderá dar respostas para perguntas que ainda não temos condições de fazer.

Se esse dia chegar (e, convenhamos, vai chegar), teremos condições de “viajar no tempo” através da realidade virtual (ou qualquer coisa equivalente a isso) e “observar” num ângulo 360° tudo que já aconteceu (de verdade) nesse planeta.

Poderemos assistir à decapitação de Maria Antonieta como se estivéssemos presentes no local. Não estou falando de uma releitura dos fatos, e sim a imagem original, com toda nitidez e sensações da época (luz, temperatura, umidade do ar, gravidade, sons, cheiros…). Virtualidade real no seu ponto extremo!

Claro que não estou falando da possibilidade de interferir no fluxo do tempo. Isso, por si só, resultaria num paradoxo que nem cabe aqui discutir. Vamos trabalhar com a ideia de que o tempo é linear e imutável, ok?

Uma “viagem” no passado

Se isso acontecer, a galera do futuro vai poder “viajar” no passado e observar simplesmente tudo que já aconteceu na história do planeta. Vai poder observar o que aconteceu no World Trade Center aos 11 dias do mês de setembro em 2001.

Vai poder ver Moisés abrindo o Mar Vermelho bem na sua frente (será que isso aconteceu exatamente como a Bíblia diz?). Vai poder presenciar o momento do parto de qualquer pessoa (inclusive o seu e o da sua mãe). Vai poder descobrir se seu pai era realmente um homem fiel.

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A galera do futuro vai poder “viajar” no passado (Crédito: Shutterstock)

Vai poder até mesmo ver pra crer em como o Brasil conseguiu levar 7 a 1 da Alemanha numa Copa do Mundo disputada em casa. E o melhor: poderá fazer isso como se estivesse dentro do campo, no meio dos jogadores (lembrando sempre: sem poder interferir). E sem narração do Galvão Bueno!

Bom… acho que se isso acontecer como eu imagino que aconteça, vai ter muita gente que vai passar o dia inteiro “se divertindo” nesse “Second Life”, bisbilhotando o passado e as vidas alheias. Eu iria achar isso divertidíssimo! 

Imagina que “você do futuro” esteja te observando nesse exato momento. Imaginou? Loucura, né? Mas agora vamos mais além ainda nessa nossa curva exponencial (sim, eu fui longe mesmo).

Escaneando os cérebros dos mortos

Quando tivermos esse “software” (sei lá que nome daremos pra isso) de voltar ao passado e bisbilhotar tudo que já aconteceu na humanidade (do Big Bang até os dias atuais), teremos um outro objetivo em mente: “scanear” os cérebros dos falecidos.

Tome um martelinho de tequila e reflita comigo: haverá um software capaz de reconhecer sinapses/ondas-cerebrais/pulsação-de-neurônios e tudo mais que a “máquina” possa identificar como um cérebro humano.

Aqui estamos falando de programação/robótica/I.A. num nível absurdamente avançado. Essa “máquina” será programada pra reconhecer um cérebro segundos antes da pessoa entrar em estado de óbito.

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No futuro, poderemos escanear os cérebros dos falecidos (Crédito: Shutterstock)

Vamos pegar o exemplo do falecido Beatle John Lennon, que morreu às 23h02m58s do dia 8 de dezembro de 1980, na frente ao edifício Dakota, em Nova Iorque (lógico que o horário não foi exatamente esse, estou chutando).

Nosso generoso software detectaria Lennon no exato instante em que ele perdeu sua consciência e foi dessa para uma melhor. Com sua ampla tecnologia, seria capaz de identificar o cérebro do astro e captar todas suas informações através de códigos binários a serem decodificados.

Esse “robozinho” então voltaria para o “presente” (ano 5.000, vamos supor) com os “dados cerebrais” de John Lennon a exato 1 segundo (talvez até menos) antes do óbito. Esses dados seriam, provavelmente, um código, assim como seu DNA é.

Pegue esses dados em formato TXT (ou seja lá o que tivermos à disposição) e jogue numa “impressora 3D”. O que teremos de volta? Yes, baby! John Lennon!

O próprio John Lennon! Com todas as suas convicções, sonhos, ideologias e lembranças que ele tinha antes de morrer, inclusive seus segredos mais íntimos que nunca contou pra ninguém.

Mas e que corpo ele teria? O mesmo de 1980 (40 anos)? Acho que, até lá, esse papo de corpo vai ser meio over. Já teremos condições de trocar de corpos (a carcaça), como hoje trocamos de aparelho celular.

Mas pra não ser injusto com o nosso amigo John Lennon, vamos lhe dar um corpo praticamente idêntico ao que ele tinha enquanto viveu na Terra (entre 1940 a 1980). Idêntico! Ok, mas o corpo dele mudou muito desde o dia do nascimento até o dia do assassinato.

Pra ser mais generoso ainda, vamos lhe dar o corpo que ele tinha no auge de sua forma física: uns 18 anos, suponho eu. Como saber que era aos 18?

Nosso avançado programa de inteligência artificial descobriria isso em questão de segundos: basta apurar todo processo de evolução do biotipo da pessoa e detectar qual foi o momento mais saudável em toda vida dela).

Eu particularmente acho que meu corpo esteve no auge da forma física e do vigor quando eu tinha meus 21 anos. Eu dava um belo caldo naquela época. E você? Qual foi o auge da sua forma física?

Lógico que uma pessoa que sempre se achou feia ou desengonçada poderia trocar seu corpo por um melhor. Poderia até trocar de corpo por algo totalmente diferente do que já foi. Mas acho que, como “sugestão do fabricante”, as pessoas deveriam retornar à vida com seu último instante de consciência e o auge de sua forma física.

E se os todos mortos voltarem à vida?

Agora pense isso acontecendo com todo mundo! Todo mundo mesmo! Até os caras mais filhos-da-puta da história seriam revividos. “O quê? Ressuscitaria Hitler também?” Sim, todo mundo. “Mas olha quanta gente ele matou!”. Sim, as pessoas que ele matou também iriam ressuscitar.

“Mas o sofrimento que ele causou foi imensurável e permaneceu por milhares de anos após a Guerra.” Mas foi reparado, não foi? Se ainda sobrar algum rancor, chame ele pra briga e lhe dê uma boa duma surra. “Ah, mas ele merece mais do que isso!” Bicho… pra quê tanto ódio nesse coração?

Tá certo que haveria aqueles que, por algum motivo, abririam mão da vida eterna e fariam questão de desaparecer. Mas vale lembrar que todas as causas que levam uma pessoa a optar pelo suicídio também deixariam de existir: dor, depressão, vergonha, humilhação, solidão, tédio… para todos esses problemas haveria uma solução.

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E se os todos mortos voltarem à vida? Todo mundo mesmo! (Crédito: Shutterstock)

Calcula-se que cerca de 108 bilhões de seres humanos já habitaram o planeta (7 bilhões ainda respiram). Acho que todas elas mereciam estar vivas. Seria perigoso haver um “juiz” dizendo quem volta e quem não volta. Isso seria mais do que um juiz, seria um Deus. Então, deixa o nosso software imparcial e incorruptível trabalhar em paz.

Nosso amigável software “ressuscitador” iria se encarregar de captar o “córtex final” de cada indivíduo (inclusive pessoas que morreram no parto) e trazê-lo consigo para o “presente”. Imagina como seria se você acordasse daqui a milhares de anos após sua morte?

Imagino que a reação imediata seria: “Meu Deus! Estou no Céu! O além existe de verdade!”. Mas isso que hoje a gente chama de “Além” pode ser, quem sabe, o futuro. Simplesmente o futuro.

Você estaria vivo assim como seus bisavôs, as vítimas do Holocausto, os filósofos gregos, os homens das cavernas… Todo mundo! Isso não lembra o Céu do Cristianismo, onde todo mundo se reencontra depois de morto e vive tocando arpa em nuvens que mais parecem algodão doce?

A diferença é que hoje isso é tratado, em âmbito científico, como uma mera fábula. Mas talvez a ciência, a religião e a filosofia tenham enredos muito parecidos.

A Bíblia fala que os mortos retornarão à vida. E isso muito antes do sucesso de Walking Dead! Se o futuro ocorrer exatamente como eu escrevo aqui (lógico que não vai ser exatamente assim mas, quem sabe, algo parecido), teremos todo mundo vivo e coexistindo no mesmo “plano espiritual” (sem essa de “nós na Terra e os defuntos no Céu”).

Já pensou como seria um mundo assim? Com TODO MUNDO de volta à vida! De várias épocas, civilizações e eras diferentes! Já pensou você vivendo no mesmo mundo que seus bisnetos, seu pai, seu avô, seu bisavô e o bisavô do seu bisavô?

Ah, claro! Talvez você se pergunte: “Mas e a população? Como iria caber tanta gente na Terra?” Bruxo, seeeee a gente conseguir chegar a esse estágio um dia, eu imagino que essa história de colonizar outros planetas (quiçá galáxias) habitáveis já vai ser um assunto batido.

Até lá, provavelmente, já teremos planetas suficiente para abrigar mais de 500 bilhões de pessoas (pensando exponencialmente). Ou talvez chegue um dia em que a gente nem precise mais de “espaço físico” pra viver. Estaremos, quem sabe, vivendo num espaço “virtual” e ilimitado.

Se isso acontecer, seremos todos vivos, imortais e contemporâneos.

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É fã de super-heróis japoneses, quadrinista nas horas vagas e entusiasta de futurismo. É sócio-fundador do Zoonk (zoonk.org). Trabalha como profissional de Criação na Assessoria de Comunicação e Marketing da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).

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