Cultura

E se não tivéssemos idade?

Tenho estudado o tema das idades e das gerações. Quanto mais estudo, mais me convenço de que não tenho idade. Não me identifico com nenhum rótulo geracional. Por isso, acho que não sou interessante para os pesquisadores de mercados e nem sou um bom público-alvo.

Primeiro, porque não me sinto confortável em ser rotulada por números e letras. Além disso, detesto a ideia de ser público-alvo de um torpedo publicitário. Não sou alvo, sou gente. Defino-me e situo-me na minha complexidade assim como complexos são todos os que estão vivendo essa profunda transição cultural.

Dentro de mim coexistem idades que se alternam e se conversam; cada uma delas marcam diferentes momentos do meu viver. Sou múltipla, complexa e muito mal compreendida pelas métricas socioeconômicas. Vivo na transição entre eras em que verdades absolutas se diluem em redes de conversação.

Idades e gerações

Enxergar as idades pelas lentes biológicas ou sociodemográficas apenas, sem considerar os aspectos psicográficos, pode distorcer seriamente a compreensão do mundo em que vivemos.

De acordo com o filósofo francês Baudrillard, viver nessa transição é como se tudo tivesse perdido sua ideia original, se libertado de sua essência e do seu valor, como numa mistura de tudo e todos. Fronteiras entre feminino/masculino, direita/esquerda, oriente/ocidente, analógico/digital, jovem/velho estão se dissipando.

Os próprios fenômenos demográficos têm fragilizado o sentido das classificações etárias. Não só os mais velhos estão vivendo muito mais, as aposentadorias sendo postergadas, como também os mais jovens se reproduzindo bem mais tarde.

Envelhecer hoje é bem diferente do que envelhecer há 30 anos atrás e nossa compreensão sobre o que é ser mais jovem ou menos jovem tem sido transformada. O conhecimento perdeu sua hierarquia: pela primeira vez em nosso cotidiano, crianças exercem autoridade de conhecimento sobre adultos no mundo digital.

A vida não termina aos 60 nem para lá dos 80. Nosso prazo de validade vai se alongando, a longevidade está caminhando na direção da hiperlongevidade. A medicina regenerativa garante que já existem alguns que poderão viver até os 150 anos. O mundo já acolhe seis gerações que convivem em todos os lugares.

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A vida não termina aos 60 nem para lá dos 80 (Crédito: Shutterstock)

Fomos em busca pela igualdade dos direitos (gênero e raça) nos anos 60/70, ainda percorrendo um árduo caminho nessa direção. No século 21 podemos iniciar a busca pela igualdade etária simplesmente porque nesse mundo de alta complexidade e longevidade, não podemos ser controlados por critérios mercadológicos que nos excluem, nos separam e agravam os conflitos.

Nossa próxima fronteira está na direção de um mundo “trans-etário”. Estamos em busca da felicidade, queremos sair do isolamento, alcançamos o potencial histórico de gerar ideias que transcendem idades. Essa horizontalidade geracional ainda tem sido pouco compreendida.

Os RHs estão buscando caminhos para administrar conflitos e conciliar diferenças geracionais no ambiente de trabalho sem saber que ser multigeracional não é ser intergeracional. Relacionar-se é muito mais do que conviver.

No horizonte, algumas inovações em curso, como por exemplo, o recrutamento às cegas, que omite a idade dos candidatos (NuBank e GE), práticas intergeracionais no ambiente de trabalho (Google e Ernst & Young) são alguns exemplos que indicam os sinais dos novos tempos.

Pangera, mundo sem idade

Por acreditar na beleza de um mundo sem idade, eu, Wellington Porto, Ronaldo Rissetto e Rafael Mello cofundamos a startup Pangera, cujo propósito é promover relacionamentos intergeracionais saudáveis e criativos em três dimensões: organizacional, social e digital.

Pangera começou a desenvolver um estudo que se pauta na semelhança entre as gerações, mais do que em suas diferenças. Os resultados preliminares serão apresentados no workshop Ideias que Transcendem Idades, dia 18 de maio em São Paulo, no Cubo do Itaú, com a presença de grandes vozes da inovação entre elas, Edgard Gouveia de Souza, Max Yogoro, Bruno Assami, entre outros. As inscrições serão gratuitas (saiba mais aqui).

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Rosa Alegria

Futurista profissional, palestrante, pesquisadora de tendências e Mestre em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston (EUA)

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