Cultura

Direitos humanos para a era digital

Em seu livro Technology vs. HumanityGerd Leonhard discute sobre cinco novos direitos humanos necessários para a era digital, frente a um cenário de avanço exponencial na automação e na Inteligência Artificial.

1. O direito a permanecer natural

Por exemplo, biológico e orgânico. Precisamos continuar tendo a escolha para existirmos em um estado não aumentado. Precisamos assegurar o direito a trabalhar ou ser empregado, utilizar serviços públicos, comprar coisas e funcionar em uma sociedade sem necessariamente termos que implementar tecnologia nos nossos corpos ou – o mais crítico – dentro deles.

Diversas manifestações do que eu (Gerd) chamo do medo do #conectadooudemitido já se apresentam nos contextos dos dispositivos móveis e da mídia social; é fácil imaginar um futuro onde nós podemos progressivamente sermos forçados a usar óculos de realidade virtual ou aumentada (VR/AR), visores ou capacetes para nos qualificar ao emprego, ou o que é pior, sermos forçados a utilizar implantes específicos de apps cerebrais (wetware) ou BCI (interface computador-cérebro (como o Neuralink) como uma condição não negociável para a contratação.

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Precisamos continuar tendo a escolha para existirmos em um estado não aumentado (Crédito: Shutterstock)

Simples humanos podem em breve não ser bons o suficiente – e de alguma forma eu (Gerd) não penso que isto seria um futuro desejável.

2. O direito a ser ineficiente

Ser ineficiente quando e onde isto definir a nossa humanidade básica. Precisamos ter a escolha de ser mais lentos e menos capazes que a tecnologia, e nós nunca deveremos considerar a eficiência mais importante que a humanidade.

Enquanto em breve será muito mais eficiente e mais barato utilizar um diagnóstico de saúde digital através de plataformas como a Scanadu ao invés de se consultar com um médico toda vez que eu tiver uma questão médica ou precisar de um checkup, isto não deveria se tornar a única forma permitida para se fazê-lo. Eu (Gerd) acredito que estas tecnologias em geral são positivas e podem ser um dos fatores chave na redução dos custos da saúde, de forma global.

Entretanto, isto significa que deveríamos penalizar as pessoas que escolherem outro caminho? Ou obrigar aqueles que não querem seus dados de saúde na nuvem a se submeter a este cenário?

3. O direito a se desconectar

Nós precisamos manter nosso direito de nos desligarmos da conectividade, ficarmos à sombra da rede, ou pausar as comunicações, o rastreamento e o monitoramento. Vamos considerar a probabilidade que muitos empregadores e empresas certamente desenvolverão a hiper-conectividade (AR, VR e BCIs) como um requisito padrão em um futuro próximo, ou que motoristas possam se tornar culpados por “desconexão não-autorizada” se eles não mais puderem ser rastreados na rede.

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Nós precisamos manter nosso direito de nos desligarmos da conectividade (Crédito: Shutterstock)

Eu acredito que ser independente, autônomo e desconectado nos momentos de nossa própria escolha são fundamentos importantes justamente porque a desconexão nos permite voltar a focar no ambiente não gerenciado e “viver o momento”, o que é essencial para a boa existência humana.

Isto também reduz o risco da obesidade digital, e reduz o risco da vigilância. Offline pode de fato ser um novo luxo, mas também deveria ser um direito digital básico.

4. O direito a ser ou permanecer anônimo

Mesmo neste mundo exponencial e hiperconectado que está por vir, nós ainda deveríamos ter a opção de não ser identificados ou rastreados, por exemplo quando utilizando uma aplicação, um bot ou uma plataforma, ou quando comentando ou criticando, desde que isto seja inofensivo aos outros e não viola os direitos de outras pessoas.

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Nós ainda deveríamos ter a opção de não ser identificados (Crédito: Shutterstock)

É certo que existem algumas ocasiões óbvias onde o anonimato real seria impossível e provavelmente injustificado de ser esperado, por exemplo ao utilizar um banco online e transações financeiras. Entretanto, nós deveríamos nos assegurar que existam espaços protegidos, onde o rastreamento completo não seja requerido ou uma norma, por exemplo ao expor opiniões políticas, compartilhar imagens pessoais ou obtendo orientações médicas.

O anonimato, o mistério a serendipidade e os erros são atributos humanos cruciais e nós devemos não buscar eliminá-los por meios tecnológicos.

5. O direito a empregar ou engajar pessoas ao invés de máquinas

Nós não devemos permitir que as empresas ou os empregadores sejam prejudicados se eles optarem por empregar pessoas ao invés de máquinas, mesmo se isto for mais caro e muito menos eficiente.

Pelo contrário, devemos considerar oferecer benefícios fiscais para aqueles que o façam, ou estipular impostos sobre a automação (robôs) para as empresas que dramaticamente reduzirem a quantidade de empregados em função das máquinas e AI. Estes novos recursos podem ser utilizados para retreinar as pessoas que se tornaram vítimas do desemprego tecnológico.

Quanto de nossa liberdade estamos dispostos a sacrificar para sermos mais eficientes…. ou mais seguros?

Traduzido de Five new human rights for the Digital Age (aqui)

Inspirado pela tradução espanhola Los derechos humanos en la era digital (aqui)

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Vinicius Soares

Engenheiro de Telecomunicações pelo Instituto Nacional de Telecomunicações e MBA em Marketing pela FGV. Atua no mercado de TIC há mais de 20 anos, com experiência em gestão de desenvolvimento de software, gestão de portfólio, marketing e vendas B2B. É especialista em Inteligência Artificial e em Estratégia de Produtos e Serviços em TIC. Fundador do AiNews Network e da Mais a.i., empreendimentos baseados em Inteligência Artificial, sendo o AiNews Network um site com conteúdo especializado em I.A. e a Mais a.i. uma empresa de consultoria, projetos e educação executiva, também em I.A.

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