Cultura

Por um melhor debate sobre gerações

Falar sobre gerações e fazer retrato sobre elas é uma das pautas preferidas de quem produz conteúdo. Mas também é um prato cheio para propagar esteriótipos questionáveis. O último exemplo foi a publicação da Época:

Eles resolvem a vida (para o bem e para o mal) pelo celular, sorvem coisas de cor verde (comer virou questão de identidade), têm um pendor para medicamentos identificados com uma tarja preta, passam a noite em claro, não se sabe se estão trabalhando ou relaxando, gostam de empunhar bandeiras universais, mas se preocupam mesmo é com sua persona nas redes sociais, pensam igual a quase todo mundo da mesma geração, comportam-se como adolescentes apesar de terem idade de adultos, tecnologia lhes é tão intrínseco como respirar, ser de esquerda é do jogo, ter o nariz em pé é condição sine qua non, gostam de Insta Stories porque ele dura pouco, arriscam tudo por terem pouco a perder, rechaçam qualquer coisa que contenha plástico, gostam de viajar para lugares onde podem mostrar novidades no Instagram.

É um lugar comum chamar os Millennials (pessoas nascidas entre a década de 1980 e meados da década de 90) de egoístas, narcisistas, e os retratarem como alienígenas fissurados por tecnologias que vão derrubar indústrias tradicionais com seus hábitos excêntricos.

Mas essa análise tem alguns problemas, como mostra esse artigo da The Wire. O primeiro é o esteriótipo de uma bolha muito específica sendo tomado como retrato de toda uma geração. Diz o artigo americano de 2013 em tradução livre:

Às vezes se tem a impressão de que esses escritores culturais de revistas têm muito pouca experiência com toda a cultura americana e preferem fazer suas análises com base no que as pessoas dizem nos cantos gentifricados de cidades como Nova York e Los Angeles no brunch do último final de semana. O tipo de jovem que escritores de revista conhecem geralmente são os estagiários da própria revista. Como a indústria de comunicação possui muito status, mas paga pouco no início de carreira, ela atrai muitos jovens ricos. Arrogantes, mimados e vaidosos, são traços tipicamente apontados para Millenials, e que são idênticos aos traços de uma criança rica.

Troque cantos gentrificados de Nova York e Los Angeles por Pinheiros, Vila Madalena (São Paulo) e Praça São Salvador (Rio de Janeiro) e isso se aplica perfeitamente ao contexto brasileiro.

Estranhamente, tentamos pintar um retrato homogêneo de uma (ou mais de uma) geração onde temos pessoas ligadas a causas universais, pessoas bastante conservadoras e alguns gastando o preço de um carro em roupas.

São pessoas completamente diferentes que estamos tentando enfiar no mesmo balaio. E o efeito colateral disso é acharmos que nossas bolhas são as narrativas vigentes, nos causando uma séria miopia quando nos deparamos com algo completamente diferente.

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Jovens questionadores se reunindo. Não eram Millenials. Era Woodstock mesmo (Fonte: woodstock.com)

Outro problema sério. Será que o que apontamos aos Millenials não são coisas inerentes a qualquer jovem em qualquer época? Não foram Millenials que sonharam com outro mundo e fizeram Woodstock.

Impetuosidade e egoísmo são traços que costumamos ter quando somos mais novos e que vamos mudando conforme a vida nos molda (de forma dura às vezes). Então, às vezes, o que é relatado como algo inerente a uma geração é aquilo que é inerente a qualquer ser humano jovem.

Naturalmente que gerações partilham de coisas em comum. Estamos falando de pessoas, que, por viverem no mesmo período, partilham de um contexto histórico, tecnológico e econômico comum. E deveríamos falar melhor de como isso afeta esse grupo de pessoas, ao invés de caricaturá-las como algo exótico.

Ao invés de caricaturar uma geração como de pessoas mimadas que casam mais tarde, não saem da casa do pais e não querem comprar uma casa, poderíamos falar sobre como o contexto econômico molda esses comportamentos.

Afinal de contas, smartphones nunca estiveram tão baratos e casas nunca estiveram tão caras. Como bem definiu Michael Hobbes, em um relato pessoal em sua reportagem sobre o cenário econômico desfavorável aos Millenialls:

Em uma das conversas mais enfurecedoras que tive para esta matéria, meu pai fala que comprou sua primeira casa aos 29 anos(…) A casa lhe custou 20 meses de seu salário. Minha primeira casa me custará mais de 10 anos do meu.

Inclusive, acredito muito que os desafios econômicos têm impacto enorme nesse espírito ativista atribuído aos Millenials. Como disse Skinner Layne:

Você critica o consumismo porque não pode comprar uma BMW, mas vai ficar bastante satisfeito no momento que puder comprar um Tesla. Mas você sabe, no fundo é a mesma coisa.

Talvez o engajamento político associado aos Millenials não seja tão exclusivo assim desta geração.

Aconteceu comigo e acredito que não estou sozinho nessa. Se você for um Millennial e conversar com seus pais, tem boas chances de descobrir que é um profissional mais capacitado que seus pais quando tinham sua idade, mas que ganha bem menos que eles ganhavam na época deles, e que é mais difícil bancar o próprio custo de vida hoje do que na geração de seus pais.

Portanto, Millenials, fiquem bem com vocês mesmos – nunca foi tão difícil ter uma vida materialmente confortável. Aos de gerações mais antigas, um pouco de empatia ajuda nessas horas (e um salário melhor pros amigos mais jovens seria ótimo!).

E a todos, que sejamos capazes de construir um olhar menos viciado e com menos esteriótipos na hora de falar de gerações.


Leia mais sobre gerações aqui.

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Eduardo Azeredo

Consultor de negócios e gestor de projetos ligado em novas tecnologias. Já atuou com coisas diversas como implementação de ERP e a criação de uma aceleradora de startups. Se considera um otimista entre os pessimistas e um pessimista entre os otimistas.

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