Cultura

A colonização do nosso futuro

O futuro que você deseja é seu ou de mais alguém? Este artigo pode parecer indigesto no ambiente profissional em que atuo, tendo em vista que entre os futuristas a inovação é referência e residência. Mas resolvi refletir mais sobre o tema.

Nosso deslumbramento por tantas inovações anunciadas por profetas milionários (normalmente concentrados no Vale do Silício) tem suas razões, algumas as mais nobres porque estão relacionadas à melhoria da condição humana.  Isso nos comove.

Outras, no entanto, são resultado de uma incessante venda de ilusões do interesse restrito de apóstolos do mercado financeiro e até mesmo de alguns empreendedores excêntricos. São elites de pensamento prospectivo nem sempre útil para a humanidade.

Ao pensar melhor naquilo que está sendo falado ou inventado, percebemos que não precisamos de muitas coisas. Nossas mentes são muitas vezes colonizadas pelas visões de futuro de outros, alguns de olho em Wall Street. Temos que começar a perguntar mais. Inovação para que e para quem?

Fundadores de startups propagam suas visões de futuro. Mas até onde elas conversam com nossas reais necessidades? Serão do interesse de alguns ou do interesse de muitos?

Vivemos na era da inovação exponencial e o mundo, diante dos múltiplos problemas que enfrenta, precisa disso. Mas quais dessas inovações são realmente necessárias? Temos que entrar nessa questão: esses interesses pessoais (e legítimos) se cruzam com os interesses do mundo e atendem suas necessidades?

Chegam a ser cômicas algumas invenções que fazem parte da coleção do Nonseum, museu de inovações inúteis localizado na Áustria. Lá podemos ver persianas para óculos de sol, piteira para dias de chuva, acendedor de cigarro à luz solar, guilhotina para unhas e apanhador de rolhas de champanhe. Algumas outras não são tão cômicas assim; são até glamourizadas pelos centros de inovação.

Tem as inovações que estão perto de nós e ilustram capas de revistas geek.  Mas até onde são realmente úteis e ajudam a melhorar a vida?

Refeições funcionais como o Soylent (uma gosma de gosto duvidoso e considerado comida do futuro), o pau de selfie (que ocupa mais espaço que o próprio celular), lingerie anti-irradiação (que tal guardar o celular na bolsa?), luvas com bluetooth, espremedor de bisnagas, e outras bugigangas que vão ocupando espaços e acabam caindo no esquecimento diário? 

A história está repleta de inovações inúteis. Na era exponencial, elas se multiplicam e fazem barulho que atordoam.

Somos seres que buscam viver melhor e nos sentimos mais felizes quando encontramos significado nesse viver. Mas nem sempre costumamos aprofundar o pensamento naquilo que realmente nos é essencial.

A cada inovação anunciada, é preciso perguntar: esse futuro é para o bem comum ou é da mente de alguém que está tentando colonizar a minha?

Colonizando o futuro?

No passado, exposições futuristas como a Futurama, criada pela General Motors, apresentaram visões de futuro relacionados ao seu próprio produto e que exigiam cidades construídas com rodovias e não estradas de ferro.

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Exposições como a Futurama apresentaram visões de futuro relacionados ao seu próprio produto (Crédito: GM)

A GM criou nosso futuro. Não que o automóvel tenha sido uma invenção inútil, mas o futuro concentrado nele colonizou mentes de toda uma civilização, sem considerar outros meios de transporte em muitas regiões do planeta. O resultado disso, todos já sabemos.

Entramos na normose da mobilidade urbana insustentável. Estamos não só diante do colapso urbano que a indústria de automóveis criou, como também diante da poluição mortífera que assola populações dos quatro cantos do mundo, em especial na América Latina.

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A GM criou nosso futuro (Crédito: GM)

Há dois anos atrás, Peter Diamandis, fundador da Singularity University, previu que os carros autônomos já estariam nas estradas e ruas em cinco anos. Mas, depois de vários estudos, a maioria dos usuários norte-americanos declarara sua paixão por dirigir, ou seja, não querem abandonar o prazer de se sentar no banco do motorista.

Isso obviamente não desqualifica o grande valor de inovações disruptivas como essa, mas ilustra como, às vezes, elas se distanciam de nossas realidades. São quase sempre futuros de um para muitos, quando muitas vezes poderiam ser futuros comuns.

Um outro exemplo é o Segway, veículo individual de duas rodas cujas vendas estavam previstas em torno de US$1 bilhão. Teve até quem previu que essa inovação iria ter tanto impacto, capaz de ultrapassar a Internet. Mas vendeu apenas 30.000 unidades. Segundo analistas, as reais necessidades dos clientes não foram atendidas

Prever o futuro é para as elites econômicas um grande negócio. Resta saber se os futuros desejados por alguns realmente satisfazem as reais necessidades de muitos e os fazem viver melhor.

Para trazer plenitude ao nosso sentido de viver precisamos começar a ter mais contato com nossa capacidade imaginativa de criar nossos próprios futuros e nos apropriarmos deles. Se você ainda não tem algum futuro em vista, pense em começar a criá-lo na direção de sua felicidade e na relação com o bem comum.

Seremos mais felizes se nossos futuros tiverem impacto positivo em nossas vidas e nas vidas de muitos.


  • Capacitação para imaginar e criar futuros pessoais dias 20/21 de julho em São Paulo | Workshop de Futurismo Pessoal com a futurista Rosa Alegria | Informações: perspektiva@gmail.com;
  • Palestra introdutória ao workshop (gratuita) | 11 de junho | Inscrições aqui.

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Rosa Alegria

Futurista profissional, palestrante, pesquisadora de tendências e Mestre em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston (EUA)

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