Transportes

Carros autônomos são o futuro? Ou seriam o presente?

“Nossa, carros autônomos, daqui a pouco os robôs estarão fazendo sozinhos!” Ano passado eu participei do Festival da transformação – FT17, evento muito legal, no qual falei sobre como a tecnologia se internalizou nas nossas vidas, como ela vem mudando nossas relações e, como consequência, a aversão que essa mudança toda gera.

E é sobre isso que escrevo: os níveis de automação dos nossos utensílios, a tecnologia e as mudanças que ela introduz no cotidiano, e nossa reação, afinal, o ser humano não lá muito fã de mudanças.

À nossa volta, vemos muitos objetos e, a maioria deles, se já não está, poderia ou têm uma versão que está conectada à internet ou tem alguma função autônoma. Computadores, celulares, televisores, óculos, carros, câmeras de segurança, geladeiras, máquinas de lavar, lâmpadas… uma casa inteira conectada e funcionando sem a gente precisar nem mesmo estar nela.

Isso soa meio absurdo, meio distante e meio extravagante, mas, quando botamos em perspectiva e fazemos uma análise mais teórica da realidade que já temos hoje, ela já não parece mais tão longe assim. Para tudo nessa vida temos níveis, diferentes patamares de qualquer condição.

Carros autônomos: futuro ou presente?

Com os dispositivos autônomos não seria diferente. Os carros autônomos, por exemplo, que são queridinhos do momento, têm níveis de autonomia. E, adivinha só? Grande parte dos carros – e provavelmente o que você tem na garagem – já estão no nível 2 de autonomia. A escala é a seguinte:

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Explico: no nível 0, o motorista faz tudo. Acelera, freia, mantém a rota, escolhe caminhos, verifica as condições do trânsito, etc. No nível 1, existem alguns sistemas auxiliares, como controle de velocidade e assistentes de frenagem e direção. No 2, o veículo toma conta da direção e o motorista só o coloca nas condições que ele deve manter (modelos que mantêm a distância do veículo a frente, evitam a saída da faixa de rolamento ou que estacionam sozinhos, por exemplo) e interfere quando precisa mudar uma dessas condições (mudar de faixa, trocar a rota, aumentar ou diminuir a velocidade). Como eu disse, até aqui são funções normais, encontradas em diversos modelos comerciais mais comuns.

Agora vem a parte divertida! No nível 3, sensores e radares fazem também o monitoramento do ambiente e usam as informações para guiar o veículo por uma rota e para alertar o motorista quando ele deve interferir (note, o veículo alerta o motorista quando é necessário interferir, é o caso dos Tesla).

Já no nível 4, o motorista (ou passageiro) só diz onde quer ir, a interferência humana não é necessária, mas existe. E, finalmente, no nível 5, não há modos de direção não autônoma do veículo, é dispensável, inclusive, a presença do passageiro.

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No nível 5, a própria presença do passageiro é dispensável (Crédito: Robohub)

Muito legal Luiz, mas isso é um carro, alta tecnologia, custa milhares de dólares, aí fica fácil ser autônomo… Então, como exercício, vamos fazer uma analogia desses níveis de automação dos carros aplicando-os a outros utensílios. Vamos imaginar isso com uma cafeteira, por exemplo.

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Máquina de espresso automática (Crédito: Gaggia Milano)

No nível 0 da automação, teríamos um coador de pano, em que o “motorista” teria que ajustar temperatura da água, quantidade de café, dosar a água, etc.… No nível 1, o equipamento assume o controle da temperatura da água e da vazão, mas o usuário ainda precisa dosar o café e controlar o início e o fim do processo (uma cafeteira doméstica comum).

No nível 2, o usuário solicita a bebida desejada e o equipamento automaticamente dosa as quantidades e controla as variáveis programadas, entregando o produto sem intervenções, apenas alertando o usuário para a reposição dos insumos (até aqui é uma realidade bem comum, as cafeterias automáticas atuais).

Ironicamente, o nível de autonomia de um carro e de uma cafeteira, atualmente, são o mesmo (nível 2), mas como a graça vem a partir do 3, podemos usar a imaginação. Imaginemos um nível 3, em que além de preparar, essa cafeteira programasse a reposição dos insumos direto com o fornecedor e realizasse o pagamento de forma digital.

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Rosie (Crédito: Jackinthedark)

Que no nível 4, medisse parâmetros no corpo do usuário e lhe informasse a hora de tomar o café ou que formulasse o café ideal para cada situação. E um nível 5, em que além de preparar o café ideal, identificasse carências de substâncias e formulasse uma bebida que incluísse o ingrediente em deficiência?

Da mesma forma, podemos comparar itens ainda mais simples. A maioria das lâmpadas, hoje, funcionam com interruptores, mas existem sensores que fazem esse trabalho, assim como modelos que se adaptam ao tipo de luminosidade ou aos sons do ambiente, à nossa rotina e aos nossos horários. Aspiradores de pó? Já existem robozinhos que varrem sozinhos. E me pergunto em quanto tempo chegaremos a querida Rosie, dos Jetsons.

Tá, mas o que você quer dizer com isso, afinal?

Quero dizer que temos exemplos de tecnologias, automações e aparelhos autônomos há muito tempo funcionando no nosso meio e estamos tão acostumados a eles que nem percebemos. Também, que a evolução para objetos autônomos mais sofisticados é questão de tempo e da necessidade que temos desse tipo de tecnologia, ou o quanto ela pode nos auxiliar. Não temos que ter medo dessa evolução, ela já está entre nós, nos ajudando no dia a dia de formas diversas.

Temos, sim, é que entender que a resistência ao novo, apesar de natural, não impede a evolução. E que em breve, o novo vira velho. Melhor pra todo mundo se aceitarmos essa transformação de coração aberto.

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Luiz Paulo Girotto Júnior

Inquieto / Entusiasta de tecnologia e inovação / Autodidata / Maker em todas as esferas / Filósofo de boteco / Músico e corredor amador / Indignado com a apatia / Empreendedor livre no ramo das cervejas especiais / Sommelier de cervejas / No mundo formal: Técnico em Mecânica, Licenciado em Letras e Servidor Público Federal na Agência Nacional de Transportes Terrestres (sim, você leu tudo certo)

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