Cultura

Blockchain e os piramideiros do Bitcoin

Há quase um consenso entre pessoas intimamente ligadas à tecnologia de que o blockchain está provocando uma das maiores revoluções desse século e que vai mudar consideravelmente (ou até quebrar) alguns sistemas tradicionais como cartórios, governo, bancos e corretoras.

A grosso modo, trata-se de uma plataforma que elimina a necessidade de um intermediário para autenticar e legitimar transações que poderiam ser feitas diretamente entre os envolvidos. Isso é um tiro na testa da burocracia e um claro sinal de que muitas profissões terão que ser reinventadas.

Não confunda Blockchain com Bitcoin

E se tem um termo que é altamente confundido com a tecnologia blockchain, esse é o tal do bitcoin. Uma confusão tão equivocada quanto perigosa, pois limitar o blockchain e seu imenso potencial a uma criptomoeda só denuncia desinformação e um possível oportunismo.

O bitcoin, que fique claro, é só uma criptomoeda entre tantas outras que existem por aí (Litecoin, Etherium, Ripple, Monero e Dash também são algumas delas). E criptomoedas, por sua vez, são só uma das muitas aplicações da tecnologia blockchain, que impacta muitos setores além do monetário. Mas parece que tem gente que não está muito a fim de entender essas definições.

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O blockchain é um tiro na testa da burocracia (Crédito: Shutterstock)

O blockchain, ou melhor, as criptomoedas, atraem cada vez mais o interesse das pessoas. É a nova promessa de dinheiro fácil e de enriquecimento a curto prazo. E isso se deve principalmente pela absurda alta que o bitcoin teve nesses últimos meses.

Só em 2017 a moeda teve valorização de 1000%, com o valor de mercado chegando a US$ 136,6 bilhões. Enquanto você lê esse post, a cotação da moeda provavelmente já superou a marca dos R$ 55 mil.

Ou seja, quem adquiriu uma pequena quantia de bitcoins lá em 2009, quando a moeda foi inventada, e conseguiu guardar esse valor até hoje, deve estar com muito dinheiro. É uma supervalorização surreal que faz muita gente acreditar que “a hora é agora”.

A nova bolha?

Nos Estados Unidos, tem gente até hipotecando a casa para poder garantir uma boa quantidade de bitcoins, a nova galinha dos ovos de ouro. E, claro, isso também gera uma expectativa muito séria de que essa bolha vai estourar numa proporção igualmente absurda, como todo tipo de investimento “certeiro” e superassediado.

E essas pessoas que vão com muita sede ao pote para enriquecer com bitcoins dificilmente se interessam pelo potencial da tecnologia blockchain e o que ela vai fazer com o mundo. O importante é ficar rico logo e sem muito esforço. É apostar numa oportunidade de ouro que está aí e que pode ser a chave para mudar de vida!

Hummm… já reparou que esse papo lembra muito o perfil daqueles engravatados que posam de empreendedor de sucesso ao te vender algum produto de fachada com a carapuça de Marketing Multinível?

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Nos EUA, tem gente até hipotecando a casa para poder garantir uma boa quantidade de bitcoins (Crédito: Shutterstock)

O mesmo papo que levou muita gente a arranjar problemas com a Justiça graças a sistemas fraudulentos como Telex Free e outras pirâmides financeiras. Pois então, tome cuidado! O bitcoin na mão de um interesseiro pilantra pode ser o “novo Ponzi”.

E se todo mundo decidir ter bitcoins?

Isso significa que essa incrível adesão e esse monte de gente se interessando por bitcoin pra encher os bolsos é algo ruim? Não necessariamente. Querendo ou não, a adesão popular é o fator decisivo para a consolidação de qualquer moeda, seja ela virtual ou não. Se as pessoas não aderirem, não tem como vingar.

E essa é a vantagem do bitcoin atrair tanta gente que só quer saber de mineirar e fazer trading, as duas formas mais “diretas” de adquirir moedas virtuais. Essas pessoas não querem melhorar o mundo, querem melhorar sua saúde financeira.

Elas não querem saber o que o blockchain vai fazer com o capitalismo, com o estado ou com o futuro, elas querem saber o que as criptomoedas vão fazer com seu faturamento líquido mensal. Mas apesar de tudo, essas pessoas estão sendo essenciais para a aceitação e a consolidação da tecnologia.

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A adesão popular é o fator decisivo para a consolidação de qualquer moeda, seja ela virtual ou não (Crédito: Shutterstock)

Com o Plano Real, implementado em julho de 1994, não foi diferente. Era preciso que o povo brasileiro acreditasse e aderisse à moeda para que a mesma ganhasse força. Há quem diga até que a vitoriosa campanha do Brasil na Copa do Mundo disputada naquele ano, nos Estados Unidos, prestou um grande serviço à economia brasileira por elevar a autoestima do brasileiro num momento repleto de incertezas.

Traçando um paralelo com os dias de hoje, será que a crise econômica do país não tem sido um elemento incentivador para que as pessoas apostem no bitcoin como uma forma de escapar da desvalorização do Real?

Seja como for, não chega a ser um absurdo dizer que o interesse dos oportunistas com pinta de piramideiro pode vir a ser algo benéfico a longo prazo, desde que eles ajudem a consolidar o bitcoin e, consequentemente, a tecnologia blockchain que só tende a ganhar força com o fortalecimento das criptomoedas.

Se o blockchain realmente conseguir botar os órgãos públicos, os cartórios e o sistema em geral de cabeça pra baixo, ninguém mais vai lembrar desses oportunistas, apesar da sua interessante contribuição para a nossa história.

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Bruno Seidel

É fã de super-heróis japoneses, quadrinista nas horas vagas e entusiasta de futurismo. É sócio-fundador do Zoonk (zoonk.org). Trabalha como profissional de Criação na Assessoria de Comunicação e Marketing da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).

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