Sustentabilidade

Tem Abundância neste Molho Secreto?

A greve dos caminhoneiros chega ao 6º dia e parece estar longe de terminar tão cedo. Refletindo a respeito, quatro membros do Molho Secreto – comunidade focada em proporcionar impacto positivo pela exploração de modelos de negócios e algoritmos – escreveram um ensaio sobre a cegueira momentânea do imprevisto.


Não abasteci o carro (Por Rafael Prikladnicki, Molho Secreto)

Ouvi mais de uma vez nos últimos dias sobre o fato de várias pessoas saírem correndo com medo para abastecer o tanque ou estocar produtos. Quando li sobre a greve a primeira vez, a primeira coisa que fiz foi ver o nível de combustível do meu carro. Tinha pouco mais de meio tanque.

No segundo dia, quando não havia mais gasolina disponível, fiquei me perguntando se devia ter enchido o tanque. A gente fica numa reflexão entre medo de faltar ou daqui a pouco tudo isso vai acabar. Mas outra reflexão surgiu. A de que outra pessoa podia precisar da gasolina que eu hipoteticamente colocaria, mas de fato não precisaria.

Por que? Por que meio tanque para mim é mais do que suficiente para andar no mínimo uma semana. E encher nesta situação seria apenas “garantir” que terei caso precise. Como assim? Se essa greve durar mais do que uma semana TODOS vão precisar. Mas agora certamente tem gente que precisa mais do que eu.

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A greve dos caminhoneiros chega ao 6º dia (Crédito: Agência Brasil)

Alguém talvez precise de gasolina para ir uma emergência, para um imprevisto, sei lá. Eu não sabia muito bem por que, mas não abasteci. Na esperança de que se lá na frente eu precisar, alguém também vai deixar de encher por que não precisa, e vai ter para mim. Essa situação nos remete ao que chamamos de escassez e abundância.

Escrevi sobre isso em 2017. E muito tem se falado disso. Mas nessas horas é que vemos como é difícil agir numa lógica de abundância. Temos abundância, mas na hora da pressão agimos numa lógica de escassez.


A Falácia da Escassez (Por Mariana Francisco, Molho Secreto)

Tenho pensado muito sobre como as grandes mudanças acontecem. “A natureza não dá saltinhos” me disse uma professora nesse final de semana, nada muda de uma hora para a outra e, durante a semana, o sistema parou. Crise do combustível, alguém disse que ia faltar e o que fizemos em massa? Geramos a falta.

Fomos da oferta controlada para escassez em questão de horas pela simples ameaça de que poderia faltar combustível. Veja bem, quando criamos a falta ela ainda não era real, foi o medo de uma ideia de falta que a fez realizar. É assim que as mudanças acontecem? Não creio. A natureza não dá saltinhos.

O que nos levou aos postos, mercados, ao pânico, não foi a falta foi o medo de mudar. Foi o medo de não ter para si e, por medo, não tem mesmo para ninguém. Não tem para pessoas, empresas, organizações que precisam muito mais do que nossos tanques que nos levam daqui pra lá. Faltou para cirurgias, para crianças…

Satish Kumar disse na semana passada quando o questionei sobre o medo: “de que exatamente você tem medo?”. Talvez se nos perguntarmos mais isso veremos que, antes da falta ser realmente relevante nos nossos tanques e geladeiras, ela será crucial, quiçá fatal, no sistema todo. E aí, nem adianta ter garantido o nosso sabe?

Se tudo parar, para onde você vai com o seu tanque cheio? Não pense no problema antes dele ser real, isso só fará com que ele se realize. Acredite que, quando o problema realmente se apresentar, você encontrará uma maneira de lidar com ele. Ou você nunca agradeceu por um problema ter surgido e melhorado sua vida?

É verdade, precisamos mudar, mas não será pensando como sempre pensamos. Antes precisaremos aprender a coexistir. A preservar e cuidar do todo, do solo, dos animais e uns dos outros. E antes, precisaremos entender que “o todo” não está lá fora, somos nós, a soma de cada um.

É assim que a mudança acontece, em um lançar-se no escuro, na compreensão do medo, na mudança do foco. Um a um, sem saltinhos, mas com corajosos passinhos de mãos dadas. Não temos alternativa.


Os caminhões pararam. E agora? (Por Fausto Vanin, Molho Secreto)

Foi a pergunta que eu fiz para minhas filhas, Cecília e Anabela. Ao que a mais nova perguntou:

Por que, pai?

Eu expliquei o motivo e o que eles fizeram.

Então, se ninguém entregar comida, nós vamos morrer?

Como elas já conhecem bem a lógica da escassez e da abundância, eu consegui fazer um vínculo a esse assunto para falar a elas sobre medo e egoísmo, e o quanto essas duas palavrinhas nos levam a tomar atitudes sem pensar.

Nesse momento a vida nos presenteou com a oportunidade de ouvir as palavras da Mariana Francisco, da Metanóia Hacking, ao vivo, falando exatamente sobre isso. Sobre que podemos ir de bike, que temos a geladeira cheia de comida, que podemos andar pela rua, ajudar e ser ajudado por outras pessoas.

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Para pessoas que vivem com recursos limitados, nada mudou (Crédito: Agência Brasil)

E o mais importante foi nos dar conta que, para pessoas que vivem com recursos limitados, nada mudou. Fomos nós, os bem supridos, que ficamos desesperados.

E vejamos que não é um momento “nós e eles”. Agimos assim, movidos por medo e egoísmo, em vários momentos da nossa vida. Muitas pessoas sofrem isso ainda na base da hierarquia das necessidades, outras um pouco mais acima. É muito mais a forma com que lidamos com isso do que acharmos que medo e egoísmo deixarão de existir.

E a vida se ilumina no sorriso de uma criança que se dá conta que temos força para agir e transformar, ajudar e ser ajudado e, como grupo (família) passarmos por momentos como esse.


Preciso fazer um desabafo aqui… (Por Felipe Menezes, Molho Secreto)

A histeria do nosso povo é que esta gerando este caos que estamos vivendo. Falamos de Escassez x Abundância no primeiro encontro. O que estamos vendo no Brasil é o exemplo típico do pensamento de escassez. A frase que mais escutei ontem e hoje é: eu to garantido!!!

Quando pensamos em garantir o nosso, mesmo sem precisar, tiramos de outro, e o círculo vicioso se reforça negativamente gerando medo, estoque e competição! É isso que queremos?

Meu chamado para vocês é: que tal nos colocarmos como protagonistas da transformação que tanto queremos e ajudar as pessoas a abrirem os olhos para que a situação não fique mais caótica? Basta a gente consumir somente o necessário, não desperdiçar recursos e incentivar todos a fazerem o mesmo! Bora?

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